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sábado, 8 de fevereiro de 2020

REDACÇÃO F8  -  8 de fevereiro de 2020

POVO CONTRA JLO FACE AO ELEVADO CUSTO DE VIDA


As reacções são muitas, muitas, para o bem e para o mal, nas conversas de passeios, nos cafés, restaurantes, nos candongueiros e escritórios, sobre a oportunidade e relevância das palavras do Presidente da República, proferidas em entrevista a um orgão estrangeiro, para não variar, a Voz da Alemanha (02.02.20), num momento em que o país precisa da âncora da economia e não do cada vez mais gasto discurso de combate aos crimes de corrupção, selectivos e centrados no "in circle" da família do ex-presidente da República, José Eduardo dos Santos.

O Folha 8 foi medir a pulsação daqueles que não conseguem comprar, semanalmente, um jornal, tão pouco ter acesso à Internet, pela opção primeira de, pelo menos, pôr pão (mesmo que seco e que tenha sido amassado pelo Diabo) na mesa.

"Eu não como corrupção, mas comida", disse Maria Joaquina, secundada por Manuel Jamba, "será que ele não tem outro discurso ou será que se doutorou em falar em corrupção, enquanto nós povo morremos de fome?"

Num dos candongueiros (táxi-colectivo) que liga o bairro Sambizanga ao Miramar/Maternidade Augusto Ngangula, o electricista-auto, no desemprego, Ngola Zau, não tem dúvidas "que essa porcaria só prejudica os pobres, pois, enquanto eles, todos gatunões que roubaram feio, querem, agora, demonstrar que foi o melhor e pior gatuno, o povo vai se lixando, sem trabalho, porque com esta confusão as empresas dos estrangeiros estão a fechar tyodos os dias".

Já Joaquina Filipe num tom mais descontraído diz não ter dúvidas, "pois o Presidente é bom a acvusar o outro que lhe deixou lá, mas não se acusa também de ter roubado naquele tempo, ter ficado rico e ter empresas feitas com o dinheiro retirado dos cofres do Estado. Porque é que ele não pede desculpa ao povo, por ter participado nessa grande roubalheira e em sinal de arrependimento, devolve as coisas ao Estado para beneficiar o Estado?"

Inconformado com a vida e muito zangado, Malaquias Bembe disse: "Porra jornalista, estes políticos do MPLA são todos uma cambada de gatunos, que agora querem nos colocar chuinga nos olhos dizendo que antes havia uns honestos embarrados e, que, como só hoje assumiram o poder, estão a denunciar agora os gatunos ... Brincadeira, são todos uns cabrões e farinha do mesmo saco".

Convicta, Manuela Bambi contraria esta tese, mesmo correndo o risco de ser contrariada pela maioria dos ocupantes do candongueiro, "o camarada João Lourenço tinha der começar a fazer alguma coisa para corrigir o que está mal e melhorar o que está bem. Para mim ele está a agir bem, sim senhor".

E a reacção não se fez esperar: "Minha senhora, vocês do MPLA são bruxos, gatunos, que já não mudam. 44 anos a fazer-nos sofrer e agora dizem que havia um gatuno honesto que era João Lourenço. Não, ele é do mesmo grupo dos marimbondos e pior que todos pela sua raiva e cinismo", assevera José Camilo.

"Nessa entrevista ele não falou nada de novo. Continuam a mentir ao povo, para ficar no poder, quando o MPLA como a maior organização criminosa, no país, pelo número de gatunos, não tem soluções, porque o seu melhor programa económico é o de roubar o dinheiro público, por isso só há uma solução, extinguir o mal do nosso seio. Não votar neles. Levá-los à justiça para a sua extinção, tendo como provas as declarações e acções do seu actual lider, que confirma serem todos bandidos, logo devem ser extintos, em 2022", concluiu.

Mais moderada, Luzia Mavinga amainando o clima pergunta ao microfone do Folha 8, mesmo sabendo que a neutralidade nos impede de lhe dar resposta: "Se no tempo do marimbondo grande, do maior corrupto, o saco de 25kg de arroz estava a 2,500 kwanzas e no tempo do que se diz honesto, que não roubou, o mesmo saco custa 15 mil kwanzas, eu prefiro o José Eduardo a João Lourenço, pois aquele, nos deixava trabalhar e não permitia que a vida fosse tão cara. Se tiver de escolher eu prefiro Zedu, como manda o meu estômago e nas eleições não tenho dúvidas, vou votar noutro partido, nunca mais no MPLA, mesmo sendo militante".

O povo parece começar, lentamente a despertar e as políticas do actual Presidente deixaram de ter unanimidade. "No princípio até gostei dele, mas depois vi ser um homem cheio de raiva e rancor mesmo contra quem lhe fez bem, colocando-o no poder. A corrupção em Angola nunca vai acabar, porque é a natureza desse partido, principalmente agora que João Lourenço como seu presidente nos diz serem eles um bando de gatunos e delinquentes. Senhor, por favor, não são minhas afirmações, mas dele (JLo), que inclusive disse que poderão ir para a cadeia o ex-presidente e seu vice da República, depois de cinco anos.Ora se é assim o povo deve despertar. Os jovens devem despertar, os sindicatos, mesmo apagados, devem acender a sua chama e lutar pelos associados, para tirarmos do poder, quem apenas nos promete mas nunca faz nada, se não nos prender quando reclamamos", assewgurou Bernarda Nalungo.
SOCIEDADE, 8 de Fevereiro de 2020

Felícia Cabrita  felicia.cabrita@sol.pt
Magistrados portugueses investigam Isabel dos Santos


Uma task force de magistrados, liderada por Rosário Teixeira, foi constituída no DCIAP para investigar operações feitas em Portugal por Isabel dos Santos, no âmbito do Luanda Leaks. 
Entretanto, enquanto decorria a reunião entre Lucilia Gago e o PGR de Angola, Pitta Grós, a empresária angolana levantava dinheiro num Multibanco da Praça do Saldanha, em Lisboa.

O Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) abriu um inquérito a Isabel dos Santos e às suas empresas em Portugal, por suspeitas de crimes de branqueamento de capitais.

Para a investigação foi constituída uma task force de magistrados liderada por Rosário Teixeira - que vai passar a pente fino todos os investimentos da empresária angolana e as informações enviadas pela Procuradoria-Geral de Angola, além do que foi revelado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas, com base na documentação supostamente entregue pelo hacker Rui Pinto. 
Segundo o SOL, apurou, a carta rogatória entregue há duas semanas pelo PGR angolano foi incluída no inquérito, o que dá margem às autoridades para uma ampla actuação.

Rosário Teixeira, que coordena esta operação, é o mesmo procurador que liderou investigações como a Operação Marquês. e que tem a seu cargo a gestão dos alertas de transfer~encias supeitas enviados pelas polícias e bancos.
O objectivo é reunir e avaliar o mais rapidamente possível toda a informação disponível.

Estão em causa eventuais crimes de branqueamento de capitais relacionados com movimentos financeiros comunicados recentemente por alguns bancos, nomeadamente do próprio EuroBic e os saques de capital da conta bancária da Sonangol na mesma instituição financeira, em Novembro de 2017, pelo gestor de conta de Isabel dos Santos.

Em apenas 15 dias (entre 2 e 17 de novembro de 2017) foram retirados 73 milhões de dólares da conta da petrolífera pública naquele banco, por ordem de Nuno Ribeiro da Cunha (então director do Private Banking do EuroBic e gestor de conta de Isabel dos Santos, que se suicidou em finais de janeiro, após a revelação do caso Luanda Leaks).
Por Executive Digest   08:00, 8 Fevereiro 2020
CHEFE DO GABINETE DE JOÃO LOURENÇO RECEBEU 17,6 MILHÕES QUANDO ERA MINISTRO DE JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS

O actual chefe de Gabinete do Presidente de Angola João Lourenço, recebeu a 25 de Julho de 2013, uma soma de 17,6 milhões de dólares na sua conta bancária, quando era ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do antigo presidente José Eduardo dos Santos, avança o Expresso na edição deste Sábado.
Essa não é a única transferência suspeita para contas bancárias do actual Chefe de Gabinete do Presidente angolano João Lourenço.
Cerca de um mês depois da transferência mais avultada, foram depositados na sua conta 5 milhões de dólares por Domingos Manuel Inglês, empresário angolano, próximo de Hélder Vieira Dias (o general "Kopelipa"), acrescenta o Expresso, citando documentos a que teve acesso.
O ano de 2013 impulsionou o património de Edeltrudes Costa, um dos homens de confiança de Eduardo dos Santos, que é hoje o Chefe de Gabinete do Presidente João Lourenço.
Grande parte da fortuna, que ultrapassa os 20 milhões, vem sendo aplicada em títulos financeiros.
Mas algum do dinheiro serviu para comprar imóveis em Portugal.
Ao semanário, o político angolano limitou-se a dizer: 
"Os recursos que recebi, tanto no exercício de funções públicas como no exercício da minha actividade profissional ou em resultado de investimentos pontualmente realizados, foram atempadamente declarados e sujeitos a escrutínio pelas autoridades angolanas competentes, sendo as minhas fontes de rendimento perfeitamente claras e legais"

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Tancos. DCIAP pediu detenção de militar colocado na República Centro Africana

Assalto em Tancos
Manuel Carlos Freire 25 Setembro 2018  19:40

Pedido foi entregue esta terça-feira no Estado-Maior General das Forças Armadas

Um dos elementos da PJ Militar (PJM) que o Ministério Público queria deter esta terça-feira, no âmbito do furto de Tancos, está colocado na República Centro-Africana e o DCIAP já pediu a sua detenção, soube o DN.

O oficial estava colocado na PJM quando se deu o furto em Tancos e foi um dos militares que interveio no processo de recuperação do material furtado, o qual está na base das detenções feitas esta terça-feira.

Na sequência da detenção do diretor da PJM e de outros elementos dessa polícia, o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) enviou ao Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA) o pedido para chamar aquele militar a Lisboa.

"Não comento", limitou-se a responder ao DN o porta-voz do EMGFA, estrutura responsável pelas forças militares no estrangeiro.

O diretor da PJM, coronel Luís Augusto Vieira, foi detido esta manhã. 
Durante a tarde estavam a ser feitas diligências para encontrar instalações em Lisboa - alternativas ao presídio militar de Tomar - onde ele pudesse ficar durante a noite, já que vai ser ouvido quarta-feira em tribunal.

A ordem de detenção do coronel Luís Vieira foi dada pelo chefe de gabinete do chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), major-general José Feliciano.

Tancos: principal suspeito do assalto foi detido na operação da Polícia Judiciária

Assalto em Tancos
Valentina Marcelino  25 Setembro 2018  13:21
Um dos detidos na operação desta manhã será o principal suspeito do assalto aos paióis de Tancos. 
O diretor da Judiciária Militar, militares da PJM

No seu comunicado sobre a operação, a Procuradoria-Geral da República (PGR) refere que, além dos militares da Polícia Judiciária Militar (PJM) e da GNR, foi também "detido um outro suspeito". 
Na lista de crimes em causa que a PGR apresenta está também "detenção de arma proibida e tráfico de armas". 
Fonte ligada à investigação não quis comentar por "ainda estarem em curso várias diligências".

Esta manhã o Ministério Público (MP) e a Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da PJ fizeram buscas na sede da Polícia Judiciária Militar (PJM) - localizada no edifício do ministério da Defesa, em Lisboa - onde foi detido o diretor, Coronel Luís Vieira., em Lisboa e no Porto. 
Foram também realizadas buscas em vários locais nas zonas da Grande Lisboa, Algarve, Porto e Santarém. 
O comandante da GNR de Loulé está também entre os detidos. 
Há mandados de detenção para cerca de meia dezena de militares, incluindo oficiais.

A operação está relacionada com o furto do material militar em Tancos e visa militares da PJM e da GNR suspeitos de terem forjado a "recuperação" das armas, em conivência com o próprio autor do roubo. 
Segundo a PGR os suspeitos estão indiciados por "factos suscetíveis de integrarem crimes de associação criminosa, denegação de justiça, prevaricação, falsificação de documentos, tráfico de influência, favorecimento pessoal praticado por funcionário, abuso de poder, recetação, detenção de arma proibida e tráfico de armas".

O material foi parcialmente recuperado a 18 de outubro de 2017, 113 dias depois de ter sido detetado o seu desaparecimento dos paióis de Tancos, a 28 de junho. 
A PJM contou que tinha recebido uma "chamada na anónima" a dar conta da presença dos caixotes com o material perto da Chamusca, mas os inspetores da UNCT, na altura liderados por Luís Neves, o atual diretor nacional da PJ, notaram algumas incongruências na narrativa. 
Um novo inquérito foi aberto e vários militares foram colocados sob investigação.

Em comunicado a PJM anunciou que "na prossecução das suas diligências de investigação no âmbito do combate ao tráfico e comércio ilícito de material de guerra, recuperou (...) na região da Chamusca, com a colaboração do núcleo de investigação criminal da Guarda Nacional Republicana (GNR) de Loulé, o material de guerra furtado dos Paióis Nacionais de Tancos". 
O texto levantou suspeitas.

Primeiro pelas "diligências de investigação" quando o inquérito ao furto estava sob coordenação da PJ que desconhecia; depois pelo envolvimento da GNR de Loulé, bem longe do local em causa. 
Nada disto fazia sentido para a UNCT, que não deu o caso por "encerrado" para surpresa da PJM e do próprio Chefe do Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte, que, em janeiro deste ano, tinha declarado "encerrado" o cado. 
Nesta altura já corria a nova investigação.

Incómodo na PJM
Desde que o MP colocou a PJ à frente da investigação, que a PJM foi dando sinais que não se tinha conformado com a decisão. 
No entender dos militares este roubou tratava-se de um crime "estritamente militar" e a investigação era da sua competência. 
Mas o histórico dos fracassos das suas investigações noutros roubos de armas (Carregueira e Alfeite, por exemplo) e a quantidade de material em causa, não deixou à Procuradora-Geral da República grande margem de manobra. 
A 4 de julho de 2017 Joana Marques Vidal emitiu um comunicado a dar conta que podiam estar em causa crimes de associação criminosa e terrorismo, tráfico internacional de armas e que a investigação seria conduzida pela PJ, com a polícia militar a dar "total colaboração institucional".

Nesse mesmo dia, Marcelo Rebelo de Sousa deslocou-se a Tancos e encontrou-se com um conjunto alargado de altos responsáveis políticos e militares: o chefe do Estado-Maior General Forças Armadas (CEMGFA), o chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), o ministro da Defesa, o secretário de Estado da Defesa, o diretor da PJM, o inspetor responsável pela investigação da PJM e um elemento do laboratório científico daquela polícia.

Segundo relatou na altura o Observador, o chefe de Estado ouviu o diretor da PJM, coronel, Luís Vieira, a fazer um resumo dos últimos dias e dos obstáculos colocados pela PJ à sua investigação. 
Foi aí também que terá revelado uma informação que surpreendeu muitos dos presentes: o MP tinha sido avisado no início do ano de que estaria em preparação um assalto a uma instalação militar da zona centro (onde se localiza Tancos) e o CEMGFA não tinha sido informado. 
A revista Sábado  publicaria no dia seguinte toda a história.

Na verdade, o MP terá tentado investigar este alerta, mas as diligências, entre as quais colocar sob escuta alguns suspeitos, foram inviabilizadas por sucessivos juízes. 
No entanto, ao trazer a questão a público, Luís Vieira comprometeu a investigação do MP e da PJ, pois alertou os suspeitos sobre a vigilância que estavam já a ser sujeitos.

A relação entre as duas polícias foi ficando cada vez mais tensa, mas quando a PJM anuncia A "recuperação" do material e o transporta para Santa Margarida, sem sequer informar o MP nem a UNCT, gelou mesmo. 
Ao ponto da desconfiança da PJ resultar numa investigação à própria Judiciária Militar.

Quem é o diretor da Polícia Judiciária Militar?

Assalto em Tancos
DN/Lusa  25 Setembro 2018 — 22:40
O coronel Luís Vieira, que foi detido no âmbito de uma investigação ao caso de Tancos, está à frente da Polícia Judiciária Militar desde 2011. 
Ao longo da carreira recebeu várias condecorações

O coronel dos Comandos Luís Vieira, detido esta terça-feira pela PJ no âmbito de uma investigação ao caso de Tancos, entrou na Polícia Judiciária Militar em 2002 e ficou à frente daquele órgão em 2011, recebendo várias condecorações.

Nascido em Moimenta da Beira em 1953, o coronel Luís Vieira cursou a Academia Militar entre 1973 e 1977 e completou o curso de Comandos no ano seguinte.

Ao longo da carreira recebeu várias condecorações. 
Foi distinguido com a medalha Comportamento Exemplar grau Ouro, a da Defesa Nacional de 1.ª classe e a de Mérito Militar de 2.ª classe.

Licenciou-se em Direito na Universidade Lusíada em 1999 e tem várias pós-graduações, um curso intensivo de Contra-Terrorismo e fez também o curso de auditor de Segurança Interna.

Na Polícia Judiciária Militar (PJM), começou como defensor oficioso em 2002/2003 e nos anos seguintes foi defensor oficioso no Supremo Tribunal Militar e juiz militar no Tribunal Criminal do Porto.

Em 2009 chegou a subdiretor-geral e dois anos depois assumiu as funções de diretor-geral, com um mandato de cinco anos que foi renovado em 2016 por despacho do atual ministro da Defesa, Azeredo Lopes.

Em julho de 2010, passou à reserva, segundo a nota curricular que consta do despacho de nomeação, em comissão de serviço, por um período de cinco anos, renovável.

A Polícia Judiciária Militar depende hierarquicamente do Ministro da Defesa Nacional. Tem como missão "coadjuvar as autoridades judiciárias na investigação criminal, desenvolver e promover as ações de prevenção e investigação criminal da sua competência ou que lhe sejam cometidas pelas autoridades judiciárias competentes".

O aparecimento do material militar furtado em Tancos foi revelado a 18 de outubro do ano passado pela Polícia Judiciária Militar, através de um comunicado, no qual adiantava que teve a colaboração do núcleo de investigação criminal da GNR de Loulé.

Na altura, a PJM indicou que o material recuperado já se encontrava nos Paióis de Santa Margarida, à guarda do Exército.

O coronel Luís Augusto Vieira foi detido para interrogatório, ao fim da manhã desta terça-feira, nas instalações da PJM, no Restelo, pela Polícia Judiciária, na presença de um oficial de patente superior, major-general do Exército, segundo fontes militares.

Um comunicado da Procuradoria-Geral da República adiantou que o inquérito que deu origem às detenções - oito, quatro de elementos da PJM, três da GNR e um civil - "investigam-se as circunstâncias em que ocorreu o aparecimento, em 18 de outubro de 2017, na região da Chamusca, de material de guerra furtado em Tancos".

Os mandados de detenção visam quatro responsáveis da PJM, incluindo Luís Vieira, um civil e três elementos da GNR.

"Inverosímil, mas nada é impossível", diz antigo diretor da PJ Militar

Assalto em Tancos
Manuel Carlos Freire  25 Setembro 2018  21:17
Militares incrédulos com a acusação e detenção do diretor da PJ Militar e na expectativa sobre os indícios recolhidos pelo Ministério Público.

A detenção do diretor da PJ Militar (PJM) deixou a generalidade dos militares em choque, surpreendidos com o caso e incrédulos perante a fundamentação invocada pelo Ministério Público (MP).

"Não acredito que um diretor [da PJM] o faça", afirmou ao DN o major-general Rodolfo Begonha, ele próprio ex-diretor daquela polícia na dependência do ministro da Defesa - com quem a procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, esteve esta manhã - e, em termos funcionais, do MP.

"É inverosímil, mas nada é impossível", afirmou Rodolfo Begonha, já que os investigadores colocam "as hipóteses todas" para esclarecer um caso aparentemente iniciado com uma chamada anónima - de várias que antes já tinham sido feitas - a alertar a PJM para ir a um certo local na zona da Chamusca.

Segundo várias fontes, investigadores da PJM e da GNR de Loulé que estavam na região a investigar outro caso relacionado também com tráfico de armas - oriundas de locais onde estavam ou tinham estado destacadas unidades militares portuguesas - foram, por isso, chamados ao local.

Para o general Rodolfo Begonha, a possibilidade de a PJM - leia-se Luís Vieira, atual diretor desde 2012 - negociar ou simular a entrega do material furtado é algo que "não está na cabeça de nenhum militar" fazer, nomeadamente àquele nível.

Mas dando como certo que o MP tem dados para fundamentar os pedidos de detenção do diretor e dos restantes três investigadores da PJM (bem como os da GNR de Loulé), Rodolfo Begonha manifestou reservas quanto à sua interpretação.

O general invocou o teor da acusação feita aos instrutores dos Comandos envolvidos na morte de dois recrutas em 2016 e que, na sua perspetiva, traduziu um "desconhecimento completo" sobre como funciona a instituição militar.

O MP "tem elementos concerteza", mas também "tem que ter provas", concluiu o antigo diretor da PJM.

Militares sem jeito para ser polícias?
Outras fontes, sob anonimato por não estarem autorizadas a falar, manifestaram ao DN a mesma estupefação com os acontecimentos desta terça-feira - e várias interrogaram-se sobre alguma ligação com eventuais tentativas de extinguir a PJM (desde logo no âmbito da reforma 2020, preparada e aprovada pelo governo anterior mas sem sucesso nesse ponto).

Para uma alta patente, "passou-se uma de duas coisas: ou alguém quer acabar com a PJM" - leia-se a PJ, que alegadamente tenta há anos ter autoridade para entrar nas unidades militares e investigar crimes ali ocorridos - "ou [os investigadores militares] puseram-se a jeito."

"Baseado em quê? Não conseguimos perceber" os fundamentos das detenções, acrescentou um oficial superior.

Para outra alta patente, a ser verdade a acusação do MP, "é de uma infantilidade brutal" alguém da PJM fazer aquilo e revelador de que "os militares não têm preparação para serem polícias".

O porquê parece difícil de perceber: a ser verdade que o coronel Luís Vieira participou numa simulação para entregar o material de guerra, fê-lo por razões corporativas? Para resolver um caso em investigação pela PJ? Para proteger alguém direta ou indiretamente ligado à instituição militar? Para mitigar o escândalo em que caiu o Exército, ao garantir que o material não ia parar a mãos criminosas?

Um terceiro oficial general considerou a própria existência da PJM como mais um exemplo de que há militares a querer ser e fazer coisas distintas das que competem às Forças Armadas.

Lembrando que a Justiça é um braço civil do Estado, a mesma fonte perguntou: "As Finanças têm uma polícia própria" para investigar crimes dentro das respetivas repartições?

O facto é que a PJM existe e na dependência do poder político, pelo que "não é militar" - estatuto que só pode ter o que depende das chefias militares, argumentou Rodolfo Begonha.

Mas, no contexto da tensão entre a PJ e a PJM que terá sido acentuada com a proibição do Exército em deixar os investigadores civis entrarem em Santa Margarida horas depois da recolha do material furtado, algumas fontes continuam a admitir essa realidade como explicação possível para o ocorrido esta terça-feira.