Aquela que muitos consideram, uma especializada quadrilha de larápios, não pára de surpreender pelos tentáculos e táctica, muitas, financeiramente dantescas.
De audição em audição, na Assembleia da República, em Portugal, os ex-homens fortes do BES, surgem com novas revelações, que nos levam a acreditar, termos andado, durante muito tempo enganados, melhor, copiosamente enganados, por uma espécie de corja endinheirada, que manipulava com maestria dados financeiros, para se beneficiar, defraudando clientes e o sistema bancário de vários países.
Vistos como iluminados financeiros, transitavam com a máxima impunidade e imunidade pelos corredores do poder de diferentes países.
O grupo criou ao longo do percurso a ilusão de ser uma muralha sólida de betão financeiro, mas, afinal, nada mais eram que uma espécie de “santidade” mafiosa.
Especialistas na exploração da debilidade bancária de alguns países, cujos líderes precisavam de um “esgoto legal” capaz de desviar dinheiro público, para alimentar contas bancárias privadas de corruptos e corruptores, trafegaram milhões e milhões de dólares e euros, entre Portugal, Angola, Venezuela, Guiné Equatorial, etc.
Em alguns destes países tinham carta branca dos respectivos líderes, eles também, autênticos “desviadores cabriteiros” do dinheiro do erário público dos respectivos Estados.
Em muito pouco tempo, o mundo viu a rápida transformação de proletários em proprietários.
Vorazes e insensíveis ao sofrimento dos respectivos povos, escancaram as portas do cofres bancários e, num toque de mágica, emergem “corruptamente” como milionários, bilionários e afins…
Em nome do pai, do filho e do espírito santo, amém, são autênticos larápios, que não se coíbem de mentir descaradamente, quer como falsos vendedores de ovos ou descendentes de famílias ricas. Invertebrada mentira.
Os angolanos cuja higiene mental ainda está preservada, ficaram estupefactos quando no dia 18 de Dezembro ouviram o ex-presidente do BES Angola (BESA), Álvaro Sobrinho dizer, em sede do parlamento português, ser oriundo de uma família rica, razão justificativa da proveniência dos milhões e milhões de dólares acumulados nos últimos anos, que lhe permitiram adquirir, milionariamente, um conjunto de empresas, que vão da comunicação social, industrial a clubes de futebol.
É pura MENTIRA a proveniência ser familiar, disse ao F8, uma fonte que bem conhece a família. Álvaro Sobrinho tem participações no capital de grupos de ‘media’, como a Newshold, o jornal o semanário Sol, bem como no Sporting. “Faço parte de uma família angolana com posses.
Os meus pais compraram-me uma casa em Cascais e um carro e vim para Portugal estudar”, justificou, acrescentando: “Eu tenho os investimentos que eu tenho, mas não é o âmbito desta comissão.
Quando esta comissão colocar estas perguntas a todas as pessoas que aqui vêm, que até podem ter mais do que eu, poderei responder”.
Esquisita justificativa, pois se iniciou deveria fundamentar, para não deixar suspeições, porquanto os anos de trabalho não seriam bastantes para aquisição do seu actual património. “Entre 2002 a 2012 trabalhei como presidente da Comissão Executiva do BESA e vice-presidente do Conselho de Administração do BESA.
Saí da ESAF em finais de 2001 para começar com a operação [do BESA] que começou em 2002 , disse Álvaro Sobrinho.
A sua família, na realidade tinha pequenos negócios de sobrevivência, como a maioria dos autóctones angolanos, cuja receita mensal e anual, não dá para comprar a pronto um apartamento em Aveiras de Cima, na grande Lisboa.
Nunca teve uma fábrica industrial, uma mina de diamantes, um poço de petróleo, uma empresa de camionagem, uma cadeia hoteleira, nada salvo o mais visível ser uma discoteca.
A actual ostentação de riqueza deriva do “cabritismo” bancário inspirado na lógica do regime de “roubar ser um dever revolucionário”, daí ser uma política institucional, com base nestes “cabos de guerra” bancários, transformar os dirigentes do regime em milionários, como base em ordens superiores, baixadas em papelinhos.
Em função das facilidades com que era orientado para “transitar” milhões de dólares, muitas vezes, diz-se, com chancela presidencial, para contas particulares de servidores públicos, incluindo militares generais, nada obstava a que pudesse utilizar a máxima de “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”.
Não é por mero acaso e isso, não disse por ser, na sua opinião, segredo bancário, que dois dos potenciais sócios do BESA, serem Manuel Hélder Vieira Dias Júnior Kopelipa e Leopoldino Fragoso do Nascimento, respectivamente chefe da Casa de Segurança do Presidente da República e assessor do chefe da Casa de Segurança, os generais no activo mais ricos do mundo, sem nunca terem inventado uma bala ou arma.
Como morre de inveja o russo Kalashinikov, inventor da arma mais famosa do mundo a AKM.
No entanto, de uma coisa ficou a saber-se, pela voz de Sobrinho, “mais de três mil milhões de euros de crédito concedido pelo BES ao BESA, que não foram reembolsados, nunca saíram de Portugal”.
Boa!
Mas uma fonte bancária diz ter o dinheiro sido transferido para contas internacionais de alguns altos mandatários angolanos e alguns gestores do BES e BESA, com aval do Banco Nacional de Angola.
Daí que dizer isso, diante da Comissão Parlamentar de inquérito ao caso BES/GES, é muito pouco, quando é quase nada, afirmar, “dizer que este dinheiro saiu para financiar o BESA não é verdade”, porque “o dinheiro ficou no BES Portugal”.
Pois ficou.
Mas isso não é o mais importante.
Importante é saber porque nunca denunciou e, mais grave, como foram feitas as aquisições das suas empresas em Portugal.
Foram através de transferências bancárias internacionais de Angola e registadas justificadamente no Banco de Portugal?
Não!
Sobre isso o mutismo, ou a ladainha de “todas as operações com moeda estrangeira eram feitas, sempre, pelo BES”, pelo que os montantes em falta “nunca saíram do BES para o BESA”.
E como os deputados portugueses refastelaram-se neta justificativa, Álvaro Sobrinho, que se escondeu em muitos segredos, sobre Angola, foi tapando o sol com a peneira, ao dizer que “a concessão de crédito do BESA seguia regras próprias”, passando por um comité de crédito, onde tinha papel relevante uma das suas cunhadas.
E aqui chegados, fez um aparte para desancar em Ricardo Salgado, que havia detonado, também, em sede parlamentar o facto.
“É no mínimo deselegante esta insinuação, pois a minha cunhada sempre esteve na área comercial e nunca mudou de área”, assegurou Sobrinho.
“As propostas, como em todos os bancos, eram feitas de maneira a que quando fosse tomada uma decisão, a gestão de risco do banco já tinha parecer, pelo que fica para a Comissão Executiva e o Conselho de Administração do BESA a sua aprovação”.
E como ninguém perguntou quem eram os beneficiários e as garantias fornecidas, Álvaro Sobrinho escusou-se em dizer tratarem-se de dirigentes, exclusivamente, dirigentes do partido no poder em Angola.
“A linha do BES ao BESA é uma grande questão para toda a gente.
Esta linha foi feita, se não me engano, em 2008. Iniciou-se com 1,5 mil milhões de dólares e tinha como finalidade a tomada firme, a subscrição, de um fundo de desenvolvimento do Estado angolano”, aqui o Estado confunde-se com o regime partidocrata, pois durante muitos anos o BESA foi um banco de cariz político, com uma carteira de activos de influência política secreta.
Tanto que não fazia parte da sua lógica a proliferação de balcões.
Sobre este aspecto, Álvaro Sobrinho reservou-se ao silêncio, preferindo atirar mais uma laracha: “parte deste dinheiro foi usado para comprar obrigações do Estado, com uma maturidade de 10 anos.
Em relação ao resto do dinheiro…
o BESA pagou 700 milhões de dólares de juros por esta operação nos últimos três anos”. Álvaro Sobrinho referiu também que o BESA tinha um “custo de financiamento de 10%. Parte desta linha foi feita via ‘trade finance’ a empresas portuguesas exportadoras.
O BESA emitia as cartas de crédito, o BES confirmava-as e pagava e o BESA fazia as transferências”, sublinhou, justificando que “muitos desses clientes, além de exportadores, eram importadores”, mas também um “nicho” selectivo de empresários, na generalidade sócios de governantes do regime.
“O crédito ficava no BESA, mas o BES recebia o dinheiro.
Mesmo a operação das obrigações, o dinheiro não saiu do BES para o BESA”, afirmou, sublinhando que foi directamente para o Banco Nacional de Angola (BNA).
Mas quando a deputada Cecília Meireles, do CDS-PP, o questionou sobre as notícias que apontam para que 80% da carteira de crédito do BESA, correspondentes a cinco mil milhões de dólares, está em risco, Álvaro Sobrinho negou, com um lacónico; “a única coisa que eu posso dizer acerca dessa matéria é que não”, vincou.
Escusando-se igualmente a esclarecer, como foi possível ser accionista do Banco Valor, cuja tramitação ocorreu ainda estava em funções no BESA, bem como se o valor anual dos seus salários superava os dois milhões de euros.
“Não lhe vou responder a essa pergunta do foro pessoal”, respondeu Sobrinho, a deputada Mariana Mortágua que não percebeu como um homem que foi gestor de banco, por melhor que fosse remunerado, tinha conseguido acumular uma fortuna pessoal como a que ele tem.
Tráfico de influência, roubo ou corrupção?
Verdade ou mentira, tudo incrimina, neste momento o ex-homem forte do BESA, que nada falou, sobre as motivações que levaram, face ao rombo do BESA, a garantia do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, de cerca de 4,5 mil milhões de dólares, talvez face ao “descaminho consciente” de empréstimos superiores a 5,7 mil milhões de dólares, mas sabe-se quem foram os beneficiários e a sua localização.
Nos segredos dos deuses estão os nomes, de quem levou carradas de dinheiro, que nunca mais vai ser devolvido e a culpa vai morrer solteira, tal como José Eduardo dos Santos foi responsável pela falência do Banco CAP (Caixa Agro-Pecuária e Pescas).
Sócrates está detido, mas – seja qual for o resultado do processo em que é visado – o povo aponta o dedo a muitas outras figuras públicas que, com políticas mais do que discutíveis, contribuíram para o estado a que Portugal chegou. Nem o actual primeiro-ministro escapa. O DIABO recorda algumas das decisões e ligações políticas dos primeiros-ministros portugueses que marcaram as últimas quatro décadas.
A memória não pode ser assim tão curta.
Recuemos até à noite da derrota eleitoral do PS, em 2011.
Uma pergunta da Rádio Renascença a José Sócrates sobre a sua relação com a Justiça indignou o líder socialista e os seus apoiantes.
A jornalista questionou Sócrates sobre se temia que a sua saída da vida política pudesse abrir a porta a futuros processos judiciais.
Na resposta, entre muitos apupos à repórter, Sócrates afirmou que não conseguia compreender a pergunta, porque “a justiça nada tem a ver com a política”.
“O que eu desejo é viver num país onde essa separação seja absolutamente ao serviço do Estado de Direito”, disse.
E rematou: “É melhor passarmos a outra pergunta”.
Passemos então a outras questões: será José Sócrates o único a ter-se aproveitado, alegadamente, do poder em proveito próprio?
O único com projectos ruinosos para o País como as PPP ou a intenção de construir linhas de TGV? Ou terá sido também o único a apoiar dez estádios para o Euro 2004?
A verdade é que já lá vão 40 anos de uma gestão ruinosa do País – e praticamente nada se fez para arrepiar caminho.
E quando a Justiça avança, parece fazê-lo em jeito de revolta para tomar um poder que em teoria já seria o seu.
Avança contra o poder político em nome da separação de poderes de que José Sócrates falava em 2011 e que agora, em cartas enviadas a partir da prisão, ele próprio parece criticar.
Procurar os responsáveis pela crise de hoje é um exercício pouco compensador.
Olhar para as decisões tomadas há décadas à luz da História actual pode ser injusto.
No entanto, há factos que a na óptica da moralidade comum e da revolta popular não podem ser varridos para debaixo do tapete.
O poder judicial não tem aceitado tal missão – excepção feita agora com Sócrates – e não caberá por certo ao jornalismo passar sentenças.
Mas há exercícios que ainda assim devem ser feitos e que não deixam de ser reveladores da triste e degradante realidade lusitana.
O histórico socialista
Mario Soares foi, no pós 25 de Abril, o primeiro grande decisor político.
Numa primeira fase, os governos não se aguentavam mais do que um ano e sucediam-se os Executivos de iniciativa presidencial.
Neste apanhado somos obrigados a relembrar os “retornados” de Angola e Moçambique, que chegaram à Metrópole espoliados de tudo o que haviam construído em África.
Os tempos eram outros.
Os jornalistas não investigavam como fazem hoje, os meios eram escassos e era mais fácil esconder acções.
Ainda assim, muitas são as histórias contadas sobre o fundador do Partido Socialista, que nunca foi julgado ou acusado judicialmente.
Mário Soares assumiu-se como “o homem dos americanos” e da CIA em Portugal.
Dos mesmos americanos que acabavam de conceber, financiar e executar o golpe contra Salvador Allende no Chile e que colocaram no poder Augusto Pinochet.
Anos mais tarde, Rosado Correia, que fora ministro de um governo chefiado por Mário Soares, vinha de Macau para Portugal com uma mala com dezenas de milhares de contos. A proveniência do dinheiro era tão pouco clara que um membro do governo de Macau foi a correr ao aeroporto tirar-lhe a mala à última hora.
Parece que se tratava de dinheiro que tinha sido obtido junto de empresários chineses com a promessa de benefícios indevidos por parte do governo de Macau.
Para quem era esse dinheiro foi coisa que nunca ficou devidamente esclarecida.
O caso Emaudio (e o célebre fax de Macau) é um episódio que envolve destacadíssimos soaristas, amigos íntimos de Mário Soares e altos dirigentes do PS da época soarista.
Ainda hoje subsistem muitas dúvidas (e não só as lançadas pelo livro de Rui Mateus) sobre o verdadeiro destino dos financiamentos vindos de Macau.
No entanto, em tribunal, os pretensos corruptores foram processualmente separados dos alegados corrompidos, com esta peculiaridade (que não é inédita) judicial: os pretensos corruptores foram condenados, enquanto os alegados corrompidos foram absolvidos.
Mário Soares utilizou mais tarde o cargo de Presidente da República para passear pelo estrangeiro como nunca ninguém fizera em Portugal.
Ele, que tanta austeridade impôs aos trabalhadores portugueses enquanto primeiro-ministro, gastou, como Presidente da República, milhões de contos dos contribuintes portugueses em passeatas pelo mundo, com verdadeiros exércitos de amigos e prosélitos do soarismo.
Cavaco, o eterno político
Anibal Cavaco Silva na lista de responsáveis pelos desígnios da Pátria seguem-se vários outros nomes.
Logo a destacar o de Aníbal Cavaco Silva, primeiro-ministro entre Novembro de 1985 e 28 de Outubro de 1995, referente a três governos constitucionais.
É o político que mais tempo governou Portugal desde o 25 de Abril.
Foi Cavaco Silva o pai da criação de milhares de “jobs” para os “boys” do PPD/PSD.
Além de ter inserido outros milhares de “boys” a recibos verdes no aparelho do Estado.
Foi no “consulado cavaquista” que começou a destruição do aparelho produtivo português. Em troca dos subsídios diários vindos da então CEE, começou a aniquilar as Pescas, a Agricultura e alguns sectores da Indústria.
Ou seja: começou exactamente com Cavaco Silva a aniquilação dos nossos recursos e capacidades.
Ainda que agora o Presidente venha reclamar que é necessário regressar à terra.
Ironias.
Quando acabaram os subsídios da CEE, onde estava a modernização e o investimento das empresas?
Quanto às empresas, faliram quase todas.
Os trabalhadores foram para o desemprego, os “chico-espertos” que desviaram o dinheiro continuaram por aí como se nada se tivesse passado.
Não há responsáveis acusados, nem politicamente nem judicialmente.
Muitos dos amigos de Cavaco Silva andaram às avessas com a Justiça.
É o caso de Oliveira e Costa – secretário de Estado dos Assuntos Fiscais do governo cavaquista entre 1985 e 1991 – que teve de responder no famoso caso BPN.
Dias Loureiro também esteve associado aos crimes financeiros do BPN, com ligações ainda não clarificadas ao traficante de armas libanês, Abdul Rahman El-Assir, de quem é grande amigo.
Foi conselheiro de Estado por nomeação directa de Cavaco Silva, função que ocupou com a “bênção” de Cavaco até já não ser possível manter o lugar devido às pressões políticas e judiciais.
Encontra-se hoje, muito confortavelmente, a viver em Cabo Verde.
Quanto ao BPN, há ainda a dizer que Cavaco Silva e a filha foram, entre 2001 a 2003, accionistas convidados da SLN, detentora do BPN, lucrando cerca de 357 mil euros. Alberto Queiroga Figueiredo, presidente da SNL Valor e integrante da Comissão de Honra da recandidatura de Cavaco Silva a Belém, reconheceu que o presidente teve acesso a informações privilegiadas, que outros accionistas não tiveram, sobre o que poderia acontecer ao BPN, precipitando a venda desses activos.
Cavaco Silva comprou as acções a 1 euro, logo seguido por um aumento de capital subscrito a 2,20 euros por acção, tendo no final recebido 2,40 euros por cada uma.
Quantos aos amigos, não nos podemos esquecer de Ferreira do Amaral, ministro das Obras Públicas do governo cavaquista, que assinou os contratos de construção da Ponte Vasco da Gama com a Lusoponte, e a concessão (super-vantajosa para a Lusoponte) de 40 anos sobre as portagens das duas pontes de Lisboa.
Ferreira do Amaral assumiu o cargo de presidente do conselho de administração da Lusoponte.
O socialista Guterres
Nesta história há ainda lugar para António Guterres.
Talvez dos poucos a quem não é apontado tanto o dedo.
Ainda assim, está bem longe de não ter responsabilidade no estado a que o País chegou.
A ideia de que podia haver auto-estradas gratuitas é uma ideia típica do guterrismo. Nesse período, o PS elevou ao máximo o dogma de que o Estado pode dar tudo às pessoas.
Desde o rendimento mínimo, através de Ferro Rodrigues, até às SCUT, pela mão de João Cravinho. António Guterres fez do Estado o Pai Natal dos portugueses.
Criou-se a ideia de que tudo era de borla.
Foi esta sorridente maneira de governar que criou o tal “pântano”.
E quando viu a sua obra pantanosa, Guterres abandonou o país de forma inacreditável.
Aliás, foram estas obras do tempo do guterrismo que deram origem a muitos dos problemas actuais do País.
Quando abandonou Portugal, António Guterres foi receber cerca de 240 mil euros de salário anual como Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados.
O ex-governante português teve direito a casa em Genebra, com motorista oficial e a segurança garantida pela polícia de Genebra, cidade internacionalizada, dado o grande número de organizações ali sediadas.
Durão, o europeu
O Bloco de Esquerda quis chamar Durão Barroso para depor perante a comissão parlamentar que investiga a aquisição de equipamentos militares (aeronaves EH-101, P-3 Orion, C-295, F-16, torpedos, submarinos U-209 e blindados Pandur II).
A proposta acabou por ser aprovada por unanimidade.
Em contrapartida, a bancada do PP exigiu a presença de António Guterres.
E também esta foi aprovada.
Ainda que ambos tenham negado envolvimento no processo de aquisição.
Aliás, Durão Barroso entrou na governação a criticar Guterres: “Os senhores [do PS] deixaram Portugal de tanga”. O então primeiro-ministro culpou o anterior Governo pelo estado das contas públicas, revelando que a derrapagem em 2001 foi de 2.244 milhões de euros, um valor suficientemente preocupante para “se tomar medidas de contenção na despesa pública” e de não se poder aplicar a redução de impostos, tal como tinha sido prometido durante a campanha eleitoral para as legislativas de Março.
Como primeiro-ministro, Durão Barroso destacou-se pela política de contenção da despesa pública (tendo como ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite) e pelo apoio à invasão do Iraque em 2003, uma decisão que, de acordo com as sondagens, era contrária à opinião da maioria dos portugueses.
Mas também Durão tem culpas no cartório.
Nos casos “swap”, Manuela Ferreira Leite não hesitou em dar luz verde numa operação que visava manter o défice abaixo dos 3% em 2003, mas que se revelou ruinosa, tal como quase todos estes contratos.
No contrato assinado entre o Governo PSD/CDS e o Citigroup, o Estado português recebeu 1,76 mil milhões de euros por dívidas fiscais e à Segurança ainda por cobrar, prevendo que seria necessário substituir 3% do pacote vendido ao gigante financeiro internacional.
Mas as contas estavam feitas por baixo, muito por baixo: essa taxa de substituição acabou por ser muito superior, comprometendo a receita fiscal nos anos seguintes.
A substituição das dívidas incobráveis, o juro implícito da operação (calculado em 17,5% pelo Tribunal de Contas em 2010) e as generosas “despesas de operação” pagas ao Citigroup levaram o Estado a antecipar o fim desta operação em 2011, calculando o valor total das transferências para o Citigroup em mais de 2 mil milhões de euros.
A chegada de Passos
Passos Coelho chegou e pouco pôde fazer, com uma “troika” às costas que ele próprio ajudou a meter no País.
Há, no entanto, duas frentes de batalha na história de Pedro Passos Coelho.
A primeira é a onda de privatizações levadas a cabo pelo primeiro-ministro, a segunda a história da Tecnoforma.
De lado fica a ligação a Miguel Relvas e a todas as histórias do homem de liderava a máquina do PSD.
No que à Tecnoforma diz respeito, a história caiu mais ou menos no esquecimento, mas ninguém ficou esclarecido.
Ao que parece, o primeiro-ministro terá recebido pagamentos do grupo Tecnoforma no valor de mais de 150 mil euros entre 1995 e 1998, quando era deputado em regime de exclusividade.
Segundo noticiou a revista “Sábado”, a denúncia chegou “este ano” à Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal, e está a ser investigada pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP).
Em causa estão, segundo a revista, pagamentos de cinco mil euros mensais não declarados pelo actual primeiro-ministro ao fisco, recebidos entre 1995 e 1998.
Passos era deputado com exclusividade (proibido de acumular outros rendimentos no Estado e associações públicas e privadas mas com rendimento mensal de mais 10%) e na altura presidia a uma organização não-governamental, o Centro Português para a Cooperação.
Segundo a Sábado, esta ONG foi concebida pelo grupo Tecnoforma “para obter financiamentos comunitários destinados a projectos de formação e cooperação”.
Quanto às privatizações, o futuro ainda vai fazer correr muita tinta sobre quem realmente teve vantagem em vender património português a interesses estrangeiros.
Bielorrússia criou um imposto de 30% nas compras de moeda estrangeira. Quirguistão fechou bolsas de negociação privada. Na Arménia, banco central já se fala em hiper-desvalorização.
A crise no rublo já se começou a fazer sentir em força nos países da antiga União Soviética.
A Bielorrússia criou um imposto que taxa em 30% todas as compras de moeda estrangeira e mais que duplicou as taxas de juro que o banco central cobra para emprestar aos bancos comerciais, para os 50%.
O banco central da Bielorrússia, país liderado pelo autoritário Alexander Lukachenko, explicou a decisão de criar este imposto com a “crescente procura por moeda estrangeira no mercado doméstico”.
Os receios em relação ao rublo estão a provocar uma fuga para divisas mais seguras, como é o caso do dólar.
A elevada dependência e ligação à Rússia começa assim a ter impacto mais direto nestes países.
No caso da Bielorrússia, mas não só, a Rússia é o principal parceiro comercial.
O rublo bielorrusso, por exemplo, já perdeu mais de 15% do seu valor face ao dólar este ano, de forma estável, tirando na sexta-feira em que em apenas um dia perdeu 5,5% do seu valor face ao dólar para o nível mais baixo desde 1998, altura em que a Rússia entrou em default, na sequência de uma crise cambial que ficou na história e nos livros de economia.
No Quirguistão, o banco central anunciou que iria fechar todas as praças de negociação privadas depois de o peg ao dólar americano (a taxa de conversão fixa) ter sido quebrado, embora por momentos, na quarta-feira.
Na Arménia, o dram perdeu 17% do seu valor face ao dólar desde meados de novembro, algo que o governador do banco central do país já chama de “híper-desvalorização”.
Para além deste imposto sobre a compra de moeda estrangeira, o banco central da Bielorrússia anunciou também que vai avançar com a proibição, temporária, de negociações de divisas fora do mercado regulamentado.
Um dos principais problemas destes países – Arménia, Moldávia, Quirguistão e Tajiquistão – é estarem elevadamente dependentes das remessas dos emigrantes que trabalham na Rússia, que estão a cair em consonância com o valor do rublo.
O rublo bielorrusso perdeu metade do seu valor desde o início do ano, mas a queda da moeda russa na semana passada tornou a situação catastrófica. A economia dos dois países é interdependente.
Efeito dominó, podemos dizer.
Não é só na Rússia de Vladimir Putin que se está a sentir o impacto dassançõeseconómicas e da queda do petróleo.
No domingo, o Governo bielorrusso bloqueou uma série de páginas noticiosas e lojas de comércio online, de forma a conter uma corrida ao bancos e resguardar as suas poupanças, contaa Business Insider.
A empresa de comunicação BelaPan, proprietária das páginas da internet Belapan.by e Naviny.by, emitiu um comunicado no domingo em que a afirma que estas foram bloqueadas sem qualquer aviso.
“Obviamente, esta decisão de bloquear os endereços de IP só pode ter sido tomada pelas autoridades, porque o Governo bielorusso tem o monopólio que providencia os IPs”, lê-se no comunicado, segundo a Business Insider.
Mas as páginas da BelaPan não foram as únicas bloqueadas.
Treze páginas de compras online também foram bloqueadas, devido a terem aumentado ao seus preços ou por os mostrarem em dólares americanos, anunciou a ministra dos negócios Irina Narkevick, de acordo com a agência noticiosa Interfax.
De acordo com a página noticiosa Business Insider, o Governo bielorrusso emitiu uma moratória onde proíbe o aumento dos preços em bens importados e alerta a população para não cair numa situação de pânico.
O bloqueio começou no dia 19 de dezembro, sexta-feira da semana passada, quando o Governo anunciou que a compra de moeda estrangeira iria ser taxada em 30% e disse a todos os exportadores para converter metade dos seus lucros na moeda do país.
O rublo bielorrusso perdeu metade do seu valor desde o início do ano, mas a queda do rublo russo na semana passada teve um impacto imediato na economia do país.
Alexander Lukashenko, Presidente da Bielorrússia, afirmou na semana passada que o país perdeu “mil milhões de rublos” devido à queda da moeda russa e anunciou que vai ser implementando um período de contenção no próximo ano.
“Para nós, é importante não saltarmos atrás da Rússia para o abismo”, afirmou.
Uma mulher passa por as prateleiras vazias em uma loja de eletrônicos em Minsk, em 21 de dezembro de 2014
TATIANA KALINOVSKAYA, AFP
21 DE DEZEMBRO DE 2014, 05:25
Minsk (AFP) - Belarus bloqueado lojas online e sites de notícias domingo, em uma aparente tentativa de impedir uma corrida aos bancos e lojas, as pessoas correram para proteger as suas poupanças.
A moeda bielorrussa foi arrastado para baixo pela queda do rublo russo na semana passada, levando as autoridades para impor medidas draconianas, proíbem os aumentos de preços, mesmo para as mercadorias importadas, e advertir as pessoas contra o pânico.
Em um comunicado divulgado no domingo, BelaPAN empresa de notícias, que corre populares sites de notícias independente Belapan.by e Naviny.by , disse que os sites foram bloqueados sábado sem qualquer aviso.
"É evidente que a decisão de bloquear os endereços IP só poderia ser tomada pelas autoridades porque em Belarus
O governo tem um monopólio no fornecimento de IPs", disse.
Outros sites bloqueados domingo foram Charter97.by, BelarusPartisan.org , Udf.by e outros com uma perspectiva de notícias independente.
O bloqueio começou em 19 de dezembro, quando o governo anunciou que as compras de moeda estrangeira serão tributados de 30 por cento e disse a todos os exportadores para converter metade de suas receitas no exterior para a moeda local.
"Parece que as autoridades querem transformar pânico luz sobre a queda do rublo bielorrusso em um real," Belarus website Partisan escreveu, chamando os bloqueios "dezembro de insanidade."
Sites de compras Internet também foram bloqueadas em massa.
Treze lojas online foram bloqueadas sábado para aumentar os seus preços ou mostrando-lhes em dólares norte-americanos, o ministro do Comércio vice Irina Narkevich disse: Interfax.
O governo anunciou uma moratória sobre os aumentos de preços de bens de consumo e ordenou produtores nacionais de aparelhos para "aumentar as entregas" e manter os preços o mesmo com o risco de a sua gestão ser demitido.
O rublo bielorrusso perdeu cerca de metade de seu valor desde o início do ano, depois de ter sido duramente atingida pela desvalorização do rublo russo desde a sua economia é fortemente dependente de seu vizinho gigante.
Presidente Alexander Lukashenko, na semana passada se queixou de que Belarus "perdeu cerca de um bilhão de dólares", devido à queda do rublo, anunciando um período de rigoroso frugalidade começando com o novo ano.
"Tudo depende das pessoas", disse ele, alertando as pessoas para não "correr como um louco" para trocar poupança.
"Para nós, é importante não pular depois da Rússia para o abismo", disse ele.
Lukashenko foi em Kiev no domingo, para reviver os esforços para sediar negociações sobre o conflito ucraniano.
Mas um funcionário de alto escalão ucraniano disse o presidente bielorrusso foi igualmente interessada em usar a viagem para construir pontes para a Europa que facilitam sua dependência de uma Rússia cada vez mais isolado.
Série de compra
Bielorrussos na fila para até quatro horas para limpar suas contas bancárias e varreu prateleiras das lojas para proteger suas economias, estocando aparelhos e utensílios domésticos de fabricação estrangeira.
Algumas máquinas ATM mesmo correu para fora de rublos bielorrussos como as pessoas temiam que os bancos estavam se preparando para bloquear cartões bancários ou introduzir limites às retiradas de dinheiro.
Na loja de departamento central na capital, as pessoas faziam fila para descarregar as suas economias e comprar qualquer coisa, desde televisores a conjuntos de fondue.
"Eu e minha esposa sempre discutem sobre o que assistir isso estamos comprando uma segunda televisão.
E a máquina de lavar roupa, como poderíamos resistir?" disse um cliente que se apresentou como Ivan, enquanto esperava que sua esposa para terminar na fila para pequenos aparelhos.
"Nós temos que fazer alguma coisa com estes rublos bielorrussos", disse um professor chamado Alla, olhando para um cara multi-fogão.
No corredor da cama, de ações foi completamente esgotado.
"Faz sentido, a nova expedição nós recebemos nos custar 30 por cento mais", disse o gerente do departamento de Alla Sukhinina.
Com moeda estrangeira rapidamente esgotada nas casas de câmbio, bielorrussos ainda lançou um site no mercado negro, dollarnash.com, onde as pessoas podem comprar e vender dólares e euros.
Enquanto a taxa de câmbio do banco central no domingo foi 10.900 rublos por dólar, taxas no website foram até 17.000.
20 anos volvidos desde o seu início, combater o regime de Lukachenko parece um esforço vão. Que força é essa que trazem nos braços, quando nunca veem mudança? Porque lutam, se não esperam surpresas?
Era o primeiro dia de verão.
A 21 de junho de 2014, Ales Bialiatski cumpria um dia normal da rotina na prisão de alta segurança de Babruisk, no sudeste da Bielorrússia.
De segunda a sábado, sete horas por dia, o ativista e os seus 14 colegas de cela encarregavam-se de encaixotar calças, luvas e camisolas feitas por outros reclusos. Naquele sábado, entretinha apenas um pensamento: no dia seguinte, além de poder descansar, teria direito ao único banho de água quente de toda a semana.
Até que, sem ninguém esperar, apareceu um guarda prisional que gritou: “Bialiatski! Venha comigo!”
À data, contava 1052 dias atrás das grades — tempo suficiente para saber que o que se avizinhava não devia ser bom.
“Entrei em pânico.
Fiquei logo à espera de alguma coisa desagradável.
Na prisão, sempre que se é chamado a meio do dia pelos guardas, é sinal de que alguma coisa má vai acontecer.
No mínimo, vai-se receber más notícias”, recorda.
Abandonou o seu posto na linha de montagem, seguiu todos os passos do carcereiro e só parou quando chegaram à porta do gabinete do diretor da prisão.
Disseram-lhe que entrasse e, assim que o fez, o responsável máximo da cadeia estendeu-lhe um papel carimbado e disse-lhe: “Vais para casa mais cedo.
Estás livre.”
Ales Bialiatski foi o último preso político a ser libertado na Bielorrússia.
Ainda há sete homens atrás de grades por afrontarem o regime de Alexander Lukachenko.
Ales Bialiatski foi libertado a 21 de junho de 2014
O ativista recorda a sua saída da prisão com toda a calma.
A sua atitude poderia passar por blasé, não fosse o sorriso que ostenta a cada palavra.
O seu corpo escorrega pela cadeira e os ombros descaem-lhe.
Está sentado à mesa da cozinha na sede clandestina da Viasna (Primavera, em bielorrusso), a maior ONG de defesa dos Direitos Humanos do país, da qual é fundador e presidente.
Ocasionalmente ergue os braços acima da cabeça, esticando ao máximo as fibras da sua camisa azul e branca, para enfim entrelaçar os dedos atrás da nuca.
É um homem em paz, relaxado.
Os tempos na prisão, porém, foram bem diferentes.
Corria outro verão, o de agosto de 2011, quando Bialiatski perdeu a liberdade.
Já tinham passado quase nove meses desde as eleições presidenciais de 19 de dezembro de 2010, em que Lukachenko foi declarado vencedor com uns fraudulentos 79,67% dos votos.
Foram detidas mais de 700 pessoas nas manifestações que se seguiram ao anúncio dos resultados oficiais.
Dos oito candidatos da oposição, sete foram detidos e mais tarde presos.
Além dos que ficaram atrás de grades, grande parte dos manifestantes daquela noite recebeu chamadas dos serviços secretos, que conseguiram, através da recolha de sinais de telemóvel, juntar os contactos de toda a gente.
Queriam saber, ao detalhe, onde tinham estado e o que tinham feito na noite dos protestos. Uma palavra em falso podia ditar a perda de um emprego ou a dispensa da universidade. Nunca as malhas do KGB estiveram tão apertadas na Bielorrússia pós-soviética.
Por isso, à medida que os meses passavam, Bialiatski sabia que a sua altura só podia estar cada vez mais próxima.
A Viasna, que fundou e lidera desde 1996, é uma das organizações mais ativas na denúncia dos podres do regime de Lukachenko — desde constantes violações dos Direitos Humanos à manipulação de resultados eleitorais.
Bialiatski, que não falha a shortlist para o Prémio Nobel da Paz desde 2011, era a cara de tudo isto.
Por isso, quando foi interpelado por dois polícias à paisana junto à Praça da Vitória em Minsk em agosto de 2011, sabia bem o que tinha pela frente.
O julgamento já tinha o final escrito muito antes de sequer ter começado.
A acusação culpou Bialiatski de ter duas contas em seu nome no estrangeiro — uma na Polónia, outra na Lituânia — das quais se serviria para proveito próprio e exclusivo, fugindo assim aos impostos.
Estava em causa um crime de ocultação de bens em grande escala, que poderia resultar em confiscação de propriedade e numa pena de prisão até seis anos.
A defesa de Bialiatski desdobrou-se em argumentos e apresentou várias provas que demonstravam a inocência de Bialiatski.
O seu advogado, que reconheceu a existência das duas contas bancárias em questão, explicou que estas não eram para uso pessoal de Bialiatski mas antes para, em nome da Viasna, ajudar financeiramente as famílias dos presos políticos; invocou a lei bielorrussa que diz que, por se tratarem de donativos, aquelas transações não eram sujeitas a imposto; relembrou que a ONG só não tinha uma conta num banco bielorrusso porque Lukachenko ordenara a revogação da licença da Viasna em 2003, votando-a à clandestinidade e violando o direito à reunião; e apresentou provas de que o dinheiro foi reunido graças a contribuições de privados e de governos estrangeiros, nomeadamente o da Holanda.
De nada serviu.
Além de ter tido o seu apartamento pessoal e o escritório da Viasna confiscados pelas autoridades, Bialiatski, que nunca confessou o crime, foi condenado a quatro anos e seis meses de prisão.
Pior do que um homicida
“O pior da prisão não foi sequer a comida, que quase não é comestível.
Nem as condições de vida, que são muito pobres…
A coisa mais difícil foi lidar com a pressão psicológica que me foi imposta.
Quiseram dar-me cabo da cabeça de todas as maneiras possíveis.
Isso é o pior.”
Entre os seus 14 colegas de cela havia cinco homicidas, dois violadores e dois toxicodependentes.
É uma prática comum a todos os presos políticos na Bielorrússia.
Ao metê-los lado a lado com criminosos deste grau, as autoridades querem fazer-lhes crer que não há diferenças entre um ativista antirregime e um assassino.
No caso de Bialiatski, quiseram que ele acreditasse que era até pior do que os restantes prisioneiros — todos os meses, sem como nem porquê, era alvo de participações por mau comportamento, garante.
De todos os reclusos daquela prisão de alto risco, mais de dois mil, era Bialiatski quem encabeçava a lista dos mais perigosos e problemáticos.
Bialiatski esteve preso durante 1052 dias. Durante esse tempo, esteve sempre sob a vigilância dos seus companheiros de cela, que depois relatavam os guardas todos os seus passos.
“Pelo menos cinco dos meus companheiros de cela estavam a vigiar-me constantemente para depois dizerem aos guardas o que é que eu dizia, o que é que eu fazia…
Tudo.
Todos os meus passos eram vigiados.
Além disso, eles estavam todos proibidos de falar comigo.
Até em situações simples.
Se algum deles pedisse para eu lhe passar um jornal, um sabonete, ou qualquer outra coisa, não me podia agradecer.
Uma vez um deles descuidou-se e foi imediatamente transferido para outra cela por um simples ‘obrigado’.”
Sem outra escolha, rendeu-se ao silêncio.
Para combater o isolamento, Bialiatski escrevia cartas a amigos e à família.
Durante os seus 1052 de prisão, só os viu três vezes.
Uma delas foi uma visita de um dia, cara a cara e sem grandes limites para além dos muros da prisão.
As outras duas foram através de um vidro e sob os olhos vigilantes e os ouvidos prudentes de um guarda.
Por isso, escreveu-lhes sempre que pôde.
A 4 de Junho de 2012 deixou um recado ao filho, Adam:
“Tradicionalmente, todos os Bialiatski sofrem dos mesmos problemas de saúde — os pulmões.
O teu avô Viktar morreu com cancro do pulmão, tal qual o seu irmão Liavon, quando tinha 60 anos.
O pai deles, o teu bisavô Ustsin, apanhou tuberculose e morreu prematuramente.
Por isso, deixa de fumar!
Não há discussão!”
Noutro escrito, dirige-se à mulher, Natalia, numa data importante:
“Feliz 25º aniversário de casamento!
Espero que este tempo todo não tenha sido nem muito chato nem triste.
Espero também que não te tenha desiludido muito durante estes 25 anos.
Lembro-me deles com nostalgia e gratidão.
Os próximos não serão piores, vão ser melhores, e havemos de festejar muitos mais aniversários do nosso casamento juntos.”
De resto, Bialiatski passava o pouco tempo livre que lhe sobrava do trabalho na fábrica a ler jornais de uma ponta à outra, ao mesmo tempo que os outros reclusos seguiam a televisão da cela, normalmente sintonizada num canal russo.
Também teve tempo para observar o pouco mundo que tinha à volta e daí tirar conclusões. Apercebeu-se de que quando se está preso, “presta-se mais atenção ao tempo e à natureza (…) e que as mudanças se sentem com mais intensidade do que quando se está em liberdade”.
Talvez tenha dado pela chegada do verão, mas nunca lhe teria passado pela cabeça que, naquele dia em que a luz do sol começou a entrar-lhe pela janela da cela logo pelas 4h30, lhe seria devolvida a liberdade.
Quando ouviu do diretor da prisão as palavras “estás livre”, julgou que era mais uma jogada para que assinasse um pedido de indulto ao Presidente — algo que recusou por duas vezes.
Só quando olhou bem para o papel à sua frente percebeu que tinha sido amnistiado. Depois de duas horas a preencher papéis, foi posto num comboio a caminho de Minsk. Ainda atordoado, pediu a um passageiro que lhe emprestasse o telemóvel e ligou à mulher. “Estou livre”, disse-lhe.
Teve de se repetir duas vezes.
Depois de 1052 dias de silêncio, nem Natalia lhe reconheceu a voz.
Bialiatski fala ao Observador quatro meses depois de sair da prisão.
Tempo suficiente, explica, para perceber que a Bielorrússia não mudou.
À superfície, anui, a o país não parece ser uma ditadura.
“Quando se vai para a rua parece que está tudo bem.
Mas, para mim, qualquer bielorrusso sabe até que linha a sua ação é aceite e sabe o que lhe acontece se ousar ultrapassá-la.
Um cidadão comum sabe que é livre para ir a um concerto ou a uma exposição.
Pode fazer muita coisa.
Pode dar um passeio na rua enquanto saboreia um gelado.”
Mas há sempre um “mas”: “Mas também sabe muito bem que não pode ir para a rua com um cartaz com palavras de ordem.”
O panorama, garante, continua tão negro quanto sempre.
“Continua a haver tortura nas nossas prisões, os reclusos são explorados e ainda há sete presos políticos.
A propaganda continua a ser aplicada através dos meios de comunicação do Estado e a maior parte da população é afetada por ela — a maior parte nem vê uma ligação entre a vida deles e a vida política do país.
Há um estado de apatia porque a televisão diz que está tudo bem.
Os media independentes que resta continuam sob controlo e a censura não desapareceu. Qualquer jornalista sabe que está a ser vigiado e que o seu trabalho pode ser comprometido a qualquer momento.”
A porta mais robusta de Minsk
Essa éa maior batalha de Mirras Yantchuk, jornalista e chefe de redação em Minsk do “primeiro canal de televisão independente da Bielorrússia”, a Belsat.
Fundada a 10 de dezembro de 2007, esta estação conta desde o início com um orçamento de 4,8 milhões de euros anuais financiados pelo governo da Polónia e pela televisão pública polaca.
Já o Governo bielorrusso recusa qualquer pedido de licença da Belsat.
Como resultado, além de independentes, também são clandestinos.
Segundo Yantchuk, a Belsat serve para “dar cobertura a todos os assuntos que não são falados na televisão do Estado”.
Para ele, há uma distinção clara: “Na Bielorrússia não existe televisão pública.
Aliás, na Bielorrússia não existe nada público, como se diz e pensa no resto da Europa. Aqui nada é público.
É do Estado.”
"Eles [o KGB] querem meter-nos medo, queriam que soubéssemos que eles nos conhecem a todos"
Mirras Yantchuk, jornalista
Quatro meses depois da fundação, os trabalhadores da Belsat ficaram a saber o preço que tinham que pagar por pertencerem a um projeto jornalístico que Lukachenko cedo se apressou a classificar de “estúpido, desinteressante e inútil”.
Na mesma noite e à mesma hora, agentes do KGB entraram na redação da Belsat e na casa de cada um dos profissionais daquele canal e levaram consigo tudo o que acharam relevante, incluindo câmaras e computadores.
“Eles queriam meter-nos medo, queriam que soubéssemos que eles nos conhecem a todos”, lembra Yantchuk.
No dia seguinte, conseguiram ter um telejornal pronto às 20h00 em ponto, filmado inteiramente com telemóveis.
Foi nesse estado que os jornalistas da Belsat encontraram a porta da redação, dias depois das eleições presidenciais de 2010. O KGB fez-lhes uma visita.
Na véspera de Natal de 2010, poucos dias depois das manifestações contra os resultados fraudulentos das últimas eleições presidenciais, o KGB voltou a fazer uma visita à Belsat.“Quando fomos para aquela redação, eu fiz questão de comprar a porta mais robusta de Minsk.
Eles primeiro tentaram arrombar a porta, mas não conseguiram, então tiveram de abri-la com uma serra elétrica”, recorda Yantchuk, incapaz de conter o riso.
Ri-se também porque dois dias antes das buscas do KGB, a equipa da Belsat empenhou-se em esvaziar por completo o apartamento que então lhes servia de redação.
“Nós não vivemos há um dia neste país, portanto calculámos logo que isto ia acontecer.” Para trás deixaram apenas uma mesa onde pousaram uma máquina de escrever antiga com um recado: “Especialmente para vocês.”
Hoje, a Belsat continua a ter a sede em Varsóvia, onde são gravados programas em estúdios semelhantes aos de qualquer canal de televisão europeu. Em Minsk, o caso muda de figura. Como acontece desde a sua fundação, acontece sem o trabalho feito na capital bielorrussa sempre em apartamentos de zonas residenciais de Minsk. Por questões de segurança, não dizem quantas moradas são. Quando Yantchuk nos abre a porta de um deles, estão apenas mais duas pessoas: um jornalista e um editor de vídeo. São 11h00 e o resto dos jornalistas está na rua a recolher material. Como em qualquer redação, e também qualquer apartamento, há alguma desarrumação. Na cozinha, o lavatório divide-se entre loiça limpa e suja. Do lado oposto, alguém deixou uma caixa de cereais tombada, não muito longe de uma câmara de filmar. O apartamento tem duas casas de banho. A uma delas é dado o uso convencional. Outra é usada como cabine de gravação de som, cujo teto tem penduradas duas mantas cinzentas e grossas que ajudam a obter uma acústica aceitável. Por detrás desta escuridão jaz uma banheira em toda a sua normalidade.
Todos os dias começam com uma reunião via Skype com a redação de Varsóvia.
O planeamento do dia é feito por fases.
Primeiro, acerta-se quais são os temas que devem ser abordados nos noticiários da emissão.
Depois, tem de se perceber o que é possível fazer ou não.
“Não nos é possível filmar em qualquer sítio de Minsk uma vez que não somos um canal registado.
Por isso é que às vezes a polícia para-nos na rua e tira-nos o equipamento todo, só para nos impedirem de filmar (…).
Há dificuldades, porque quando [um editor manda] um jornalista fazer um trabalho, não sabe se ele volta com material ou até se ele volta de todo.”
Em 2007, poucos dias de a Belsat ir para o ar pela primeira vez, Lukachenko descreveu o canal como “estúpido, desinteressante e inútil”.
A maior parte da audiência da Belsat tem um salário acima da média e educação superior. Alguns deles, garante Yantchuk, trabalham no “setor do Estado”.
Por ser um canal de satélite, a Belsat chega diretamente a apenas 1 milhão de pessoas, cerca de 10% da população bielorrussa.
Ainda assim, há quem copie o sinal de satélite e o retransmita na Internet, tornando o canal acessível a qualquer pessoa com um computador e uma ligação.
Um dos programas com maior audiência chama-se “Eu tenho o direito”.
Neste programa apresentado por Yantchuk, são analisadas situações em que instituições do Estado ou os seus funcionários não respeitaram a lei.
Os casos tratados são baseados em histórias reais que chegam diariamente à redação da Belsat.
“A maior parte dos bielorrussos não tem consciência dos seus direitos, e o que nós tentamos fazer neste programa é lembrá-los que mesmo na situação em que estamos, há direitos.
Por exemplo, o direito à saúde ou o direito a um tratamento digno por parte das órgãos do Estado.
No nosso país só um canal como a Belsat pode ter um programa destes.
Seria impossível algo assim na televisão do Estado.”
Outro ponto de honra da Belsat, além de ser o único canal de televisão independente da Bielorrússia, é ser o único cuja transmissão é exclusivamente em… bielorrusso.
De resto, a televisão do Estado e a maior parte das rádios e jornais são em russo.
Não foi por acaso, mas antes por decreto.
Em 1959, o então Presidente da União Soviética, Nikita Krustchov, deixou bem claro a sua visão num discurso em Minsk: “Quanto mais cedo falarmos todos russo, mais depressa conseguiremos construir o comunismo.”
Um ano depois, 87% dos livros publicados na Bielorrússia ainda eram escritos em bielorrusso.
Em 1980, o número colapsou para 12%.
Em 2011, vinte anos depois do fim da União Soviética, o número era 10%.
“Isto é tudo resultado de políticas soviéticas e da postura do Lukachenko, que é exatamente a mesma”, acusa Yantchuk.
“É a catástrofe de uma nação, quando já nem a sua própria língua é falada, ainda para mais tendo em conta quem é que temos do outro lado da fronteira.
É uma ocupação cultural do nosso país.”
Alucinações no Império Russo-Chinês
Se não temos um nome para lhe dar, como é que podemos saber que existe?
Minsk é uma cidade entre tantas outras na região Noroeste do Império Russo-Chinês, uma enorme potência mundial que sempre existiu e sempre existirá.
A vida é um processo mecânico e maquinal, onde o trabalho é feito em prol do bem comum, mesmo que aqueles que produzem em seu nome não se apercebam da sua concretização.
Em todo este território bicontinental a comunicação é feita numa mistura de duas línguas antigas e arcaicas, o russo e o chinês.
Não se sabe da existência de outros idiomas neste planeta.
Não há surpresas, nem imprevistos.
Dividido em três partes iguais de 1984 (George Orwell), Admirável Mundo Novo e Fahrenheit 451 (Ray Bradbury), é este o início de Mo Va, o mais recente livro do autor bielorrusso Viktor Martynovitch.
Nesta história, o tapete onde os pés desta estabilidade aparentemente eterna assentam é puxado quando grupos da máfia chinesa passam a distribuir clandestinamente uma droga poderosa e libertadora.
Não se trata de nenhum pó, não são ervas que se possam fumar ou algo que se possa engolir.
São antes pequenos papéis, do tamanho de uma mortalha de cigarro, com fragmentos de textos num língua desconhecida.
Sem avançar muito, os traficantes dizem apenas que esta droga se chama “Mo Va”, que significa “língua” num idioma que há um número incerto de décadas era vagamente conhecido como “bielorrusso”.
Cada dose submerge o tomador num corrupio de alucinações dispersas que pouco a pouco vão fazendo cada vez mais sentido.
Primeiro, sem grande esforço, entende o estranho idioma com facilidade, como se ele tivesse estado esquecido numa parte adormecida do seu cérebro.
Depois, através das imagens que vê diante de si a cada leitura sub-reptícia de “Mo Va”, apercebe-se de que em tempos idos não havia nada parecido como o Império Russo-Chinês.
Houve até um pequeno país chamado Bielorrússia, cuja capital era a mesma Minsk onde vive.
A droga alastra-se ao ponto de já ser impossível ser segredo.
É nessa altura que a revolta explode.
Em pouco mais de um mês, o livro de Martynovitch vendeu 2 mil cópias e foi descarregado 3 mil vezes na Internet.
A crítica na imprensa dividiu-se, com alguns a dizerem que o livro era “pertinente” e outros a classificarem-no como “panfletário” e “pouco original”.
Ao Observador, momentos antes do lançamento da obra na Ў Gallery (um espaço no centro de Minsk com café, bar, livraria e sala de exposições no centro de Minsk), Martynovitch explica que sempre procurou escrever um livro sobre o tema da língua e que “uma distopia é talvez a melhor maneira para abordar este tema, considerando a gravidade da situação”.
Para o escritor e académico, que actualmente vive em Viena, “a mova está praticamente a morrer porque ninguém a fala”.
Olhando para os números, é praticamente inegável que Martynovitch tem razão: segundo a IISEPS, a principal agência de estudos de opinião independente e de referência na Bielorrússia, menos de 5% de pessoas fala apenas bielorrusso no seu quotidiano.
Quanto ao russo, o número ultrapassa os 60%.
No meio, estão pessoas que alternam entre as duas línguas ou que então as misturam. Nesses casos, o russo tem por hábito prevalecer.
Mas cinco dias depois, na mesma sala onde Mo Va foi apresentado, os números são outros: num espaço que não vai para lá dos 100 metros quadrados, estão mais de 300 bielorrussos a aprender bielorrusso.
Há jovens e idosos, gravatas e tshirts.
Embora estejam -2 Cº lá fora, são poucas as testas que não reluzem com transpiração, tal é o calor humano.
A sala está tão cheia que sempre que alguém empurra a porta para entrar, esta esbarra naqueles que já lá estão.
Noutro lado, sem visão para o quadro e para os professores, doze alunos sentam-se conformados em frente à casa de banho e tiram apontamentos.
Todas as semanas, cerca de 300 pessoas aparecem nas aulas de bielorrusso na Ў Gallery, em Minsk.
O cenário repete-se todas as segundas-feiras no centro de exposições da Ў Gallery.
A aula, conhecida como Mova Na Nova (“A Língua de Novo”), começa às 19h00 e prolonga-se durante três horas.
Ao longo desse tempo, os formadores tentam atingir um equilíbrio — todas as lições têm ensino de gramática e vocabulário e discursos de figuras públicas que fazem questão de falar naquela que consideram ser a verdadeira língua nacional.
No final, há sempre um concerto.
As músicas são, claro, cantadas em bielorrusso.
Alesia Litvinovskaya, linguista de 44 anos, é um das fundadoras deste projeto que começou em janeiro deste ano.
“Quando começámos pensávamos que só os nossos amigos e familiares é que vinham. Mas passado pouco tempo, posso dizer que não conheço 90% dos nossos alunos.”
A participação inesperada, explica, é a consequência de uma necessidade de introspeção nacional.
“Existe um grande problema de identidade no nosso país.
A maior parte das pessoas só sabe aquilo que não são: estão certos de que não são russos.
Mas, por outro lado, não sabem o que são ao certo.
Afinal de contas, o que é ser bielorrusso?”
A pergunta é retórica, mas a língua pode ser um bom início de resposta.
Para Litvinovskaya, a “mova” está manchada por dois estereótipos “altamente destrutivos”. “Por um lado, há ideia de que o bielorrusso é uma língua pouco evoluída, até básica, que só é falada pelas pessoas que não têm escolaridade, que vivem isoladas nas aldeia e que trabalham nos colcózes [quintas coletivas subsidiadas pelo Estado].
Por outro, há quem diga que é a língua da oposição.”
Tal como acontece com a maior parte dos estereótipos, também estes têm algum fundo de verdade.
Eu cheguei cá [a Minsk, anos 60] e falava com toda a gente em bielorrusso. Mas não dava: falar bielorrusso era uma grande vergonha. Na altura não tive outra opção e rendi-me ao russo.
Slava, engenheiro e aluno de bielorrusso
E é também inegável que a oposição, juntamente com os meios intelectuais e culturais de Minsk, comunica tanto para dentro como para fora em bielorrusso.
Nos meios mais jovens, que cresceram com a Internet mas foram educados por pais moldados pela mentalidade soviética,falar bielorrusso é também uma marca distintiva.
É cool. A Ў Gallery, cujo nome é inspirado num caráter que existe apenas em bielorrusso e que se lê como um “U”, é um bom exemplo disso.
É frequentada maioritariamente por pessoas abaixo dos 40 anos e um ponto de encontro para artistas e jornalistas, para os quais falar bielorrusso é uma afirmação perante o próximo — seja numa discussão sobre os 20 anos de Lukachenko, seja a pedir mais um copo de vinho tinto.
Num país onde a repressão é mais antiga do que as fronteiras e os meios de protesto escassos, falar bielorrusso é um ato de rebeldia e um gesto político.
Slava, engenheiro de 65 anos, é um dos alunos mais assíduos do curso.
Nascido e criado numa aldeia, lembra-se de como chegou a ser humilhado quando assentou malas em Minsk aos 18 anos, pronto a estudar na universidade.
“Eu cheguei cá e falava com toda a gente em bielorrusso.
Mas não dava: falar bielorrusso era uma grande vergonha.
Na altura não tive outra opção e rendi-me ao russo.”
Falar a mesma língua do que Moscovo era uma chave para o sucesso.
Como resultado, Slava esqueceu-se da sua própria língua.
Só a falava nas viagens esporádicas à sua aldeia e, quando o fazia, trocava géneros, errava tempos verbais e esquecia vocabulário.
A vergonha agora era outra. Autoimposta.
“Fiquei triste com isto, é como se tivesse perdido o meu passado.”
Agora, com a ajuda das aulas de bielorrusso, aonde vai sempre acompanhado da mulher, já domina quase por completo o seu idioma de berço.
“Agora até está na moda, veja bem!”, exclama, sem esconder o espanto.
Slava, na aula de bielorrusso na Ў Gallery, com a mulher
E concorda que esta moda também tem um fundo político?
“Claro que sim, isto é político!
Nós fomos reprimidos há mais tempo do que nos lembramos e continuamos a ser.
A língua é o primeiro passo para a liberdade.”
Já Litvinovskaya evita falar de política.
Fazê-lo mais do que esporadicamente pode trazer problemas ao Mova Na Nova.
“Nós estamos numa situação vulnerável.
Toda a gente sabe isto neste país: quem se mete no caminho do Governo pode ter a certeza de que vai ser abordado pelo KGB.
Não queremos relacionar as nossas aulas com política, porque assim que o fizermos as nossas aulas passam a ser proibidas [pelas autoridades]”, explica.
A lista negra e a catarse fora de fronteiras
Foi o que se passou com Liavon Volski, músico de 49 anos e pioneiro do rock bielorrusso. Com uma carreira iniciada nos tempos da perestroika,
Volski sempre escreveu letras irónicas e incómodas para o poder político.
E, embora a liberdade de expressão em geral fosse menor nos anos da União Soviética do que naqueles que se seguiram, foi o regime de Lukachenko que lhe colocou os maiores entraves.
Em 2004 Volski e a sua banda de então, os NRM (sigla para Nova República dos Sonhos, em português), foram convidados para tocar num pequeno festival em Minsk que foi marcado para assinalar (pela negativa) o décimo aniversário da primeira eleição de Lukachenko.
Os concertos ocorreram de forma pacífica e ficaram marcados como um dia de protesto contra um político que já nesses anos não parecia querer ficar apenas uma década no poder.
Mas, no dia seguinte, os proprietários e gerentes de todos os bares, pavilhões e salas de espetáculos do país receberam uma lista com bandas que estavam proibidas de actuar em público.
Estavam lá todas as bandas daquele festival.
"Os donos dos bares até têm medo de falar connosco, porque assim que surgir o rumor de que nós vamos lá dar um concerto, no dia a seguir eles já vão estar de portas fechadas"
Liavon Volski, músico
Em 2008, altura em que a Bielorrússia estava à beira de uma crise diplomática e energética com a Rússia, a lista desapareceu.
O apurado sentido de oportunismo de Lukachenko fê-lo virar-se para a Europa, dando início a um esforço puramente cosmético para fazer crer a Bruxelas que a Bielorrússia não era, afinal, a “última ditadura da Europa” e era apenas um país na rota da modernidade. Por isso, a lista negra desapareceu e os concertos voltaram a ser permitidos.
O último de todos, lembra Volski, foi quatro dias antes das eleições de 19 de dezembro de 2010.
“Foi um concerto emblemático, lemos textos de poetas bielorrussos, as pessoas estavam em sintonia connosco, estava lá muita gente…
Mas nós já sabíamos que depois daquilo tudo eles iam acabar com tudo de novo.”
E assim foi.
A lista voltou e ainda com mais força, alargando-se a um número maior de bandas.
“Os donos dos bares até têm medo de falar connosco, porque assim que surgir o rumor de que nós vamos lá dar um concerto, no dia a seguir eles já vão estar de portas fechadas. Pode ir lá uma inspeção de higiene que diz que aquilo é uma pocilga mesmo que esteja completamente limpo, por exemplo.
Na melhor das hipóteses, passam-lhes uma multa enorme.
Ou então simplesmente tiram-lhes a licença e fecham-lhes as portas.”
Avon Volski faz música desde os anos da perestroika e é um dos pioneiros do rock bielorrusso
O fim da carreira chegou a estar por perto para Volski, que caiu numa “depressão enorme”. Por um lado havia a revolta de não conseguir tocar no seu país, por outro a dificuldade em fazer da música um meio de sobrevivência.
Num tempo em que a venda de álbuns é insignificante e os concertos são o ganha-pão, o que fazer quando este é negado?
Anna Volskaya, manager e mulher de Volski, conseguiu resolver o problema.
“Achei que a lista negra já estava a fazer demasiados estragos e sentei-me para ver se arranjava alguma solução.
Então pus-me a olhar para o mapa e vi que Vilnius [na Lituânia] é a capital europeia mais próxima.
São só 170 quilómetros.
Liguei logo para o embaixador lituano em Minsk, porque somos próximos.
Perguntei-lhe: ‘E se nós passássemos a fazer concertos na Lituânia?’”
A receita ideal foi encontrada.
A embaixada propôs ajudar os bielorrussos que tivessem um bilhete para um concerto do Liavon Volski na Lituânia a título grátis.
Mais: os 60 euros que são por norma cobrados a cada bielorrusso que queira entrar no espaço Schengen seriam perdoados.
“Ganhámos todos com isto”, explica Volskaya.
“Foi uma oportunidade que muitas pessoas tiveram de sair do país, irem à União Europeia e verem como a vida é lá.
E nós poderíamos tocar sem ter de dar a volta às autoridades ou comprometer alguém, porque essa não é a minha maneira de fazer as coisas.”
Uma semana antes de falar com o Observador, Volski tocou para quase 3 mil espetadores em Vilnius.
Na semana a seguir voltou a fazê-lo perante centenas de pessoas num concerto à porta fechada, também na capital lituana.
Não são concertos, são autênticos momentos de catarse.
Como se, por momentos, a ditadura deixasse de existir.
Um dos pontos altos de cada espetáculo é quando soam os primeiros acordes da música “Tri tcharapaqui” (“Três pequenas tartarugas”).
A letra e a melodia são de Volski, que escreveu a música em 2000, quando ainda era vocalista dos NRM.
Esta canção é daquelas cuja letra está na ponta da língua de vários gerações na Bielorrússia, quase como se fosse património nacional.
Em Minsk, é difícil encontrar quem não a conheça.
“Quando sentires um cheiro a esgoto
E a vida te puser uma trela ao pescoço,
Vais perceber que as três tartarugas
Continuam a empurrar a terra.
Quando saíres da cidade ou escalares a montanha
E conheceres outras pessoas
Vais perceber que hoje, tal como ontem,
A nossa terra está em cima de três baleias.”
Como acontece com um bom número de músicas que são do conhecimento geral, os significados desta letra são debatíveis.
Quem são as “três tartarugas” que, canta Volski, empurram a terra?
Lénine, Estaline e Lukachenko?
Ninguém sabe ao certo.
Tal como as “três baleias”, e o igual número de elefantes que também são referidos mais à frente.
Talvez a confusão faça parte disto tudo.
Mas há, no entanto, uma mensagem clara no refrão da música.
No meio da confusão, no meio das descobertas de quem escala a montanha, há algo que é certo:
“Hey! La, la, la, lai! Não esperes nada, não vai haver surpresas!
Hey! La, la, la, lai! Não esperes nada, não esperes nada!”
Lukachenko é Presidente da Bielorrússia há 20 anos.
Poucos arriscam adivinhar quantos anos ainda tem pela frente.
Para aqueles que dedicam a vida a combatê-lo da maneira que melhor podem e conseguem, o pessimismo é a regra.
Não haverá surpresas.
Quando por fim acaba de falar com o Observador na cozinha da Viasna, Bialiatski levanta-se e dedica-se a lavar as chávenas para chá que foram usadas durante a conversa. Debruçado sobre o lava-loiças, sem se virar para trás, inverte os papéis e lança uma pergunta-nos: “E o Salazar?
Quanto tempo é que ele esteve no poder?”
“36 anos”, respondemos-lhe.
“Vamos ver como é por aqui”, responde, com a voz abafada pela água do lava-loiças, como quem não espera surpresas.