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quarta-feira, 18 de março de 2015

Polícias limitam acesso a processos mediáticos

Sistema para esconder Processos de mídia para evitar Sejam viram
LISTA VIP de CONTRIBUINTES
18/3/2015, 18:45
Sónia Simões
Com a polémica da lista VIP do fisco no auge, discutem-se os sistemas informáticos do Estado. 
Os das polícias são todos diferentes. 
Mas em todos é possível ocultar processos mediáticos.

Se um agente da PSP pesquisar o nome de José Sócrates, por exemplo, no sistema informático, o máximo que lhe deverá aparecer será a morada e a matrícula do carro. 
O sistema permite, por ordens superiores, ocultar todos os processos mediáticos ou mais sensíveis. 
E nem um oficial da PSP, com mais permissões que o agente, o consegue encontrar.

Os sistemas informáticos da PSP, GNR, PJ e do Ministério Público são diferentes, mas cada um deles dispõe de níveis de segurança para triar os acessos. 
E além de permitir ocultar processos mais sensíveis da base de dados, rastreia tudo. 
Ou seja, fica gravado o nome do utilizador, o local em que acedeu, por quanto tempo e o que consultou.

Numa altura em que estalou a polémica sobre os acessos do fisco a dados fiscais, com a existência de uma lista VIP, é importante perceber como funcionam esses acessos nas polícias e na justiça.

Limitações nos acessos da PSP

Na PSP, o acesso ao Sistema Estratégico de Informação, Gestão e Controlo Operacional (SEI) exige uma palavra-passe. 
E o nível de informações a disponibilizar é limitado. 
Um agente da patrulha não tem os mesmo acessos que um elemento da investigação criminal. 
E mesmo na informação que pesquisar poderá ter restrições.
” Imagine que quero pesquisar sobre si. Insiro o seu nome e consigo saber a sua morada, o carro, a data de nascimento. Mas se eu quiser entrar numa outra questão, como se já foi condenada, se foi alvo de um processo, tenho mais restrições e pode ser-me pedida password para aceder aquela informação”, exemplifica ao Observador Paulo Rodrigues, presidente da Associação Sindical de Profissionais de Polícia.
O sistema foi introduzido em 2004 e tem sido melhorado desde então. 
Atualmente permite que um polícia em Bragança consiga saber se o suspeito que acabou de deter é alvo de algum inquérito noutra cidade. 
Como todas as informações policiais são colocadas no sistema, mesmo que não haja queixa-crime do lesado há a informação de que determinada pessoa cometeu um qualquer crime. 
E a isso, todos têm acesso.

Mas, por outro lado, o sistema permite ocultar processos mais sensíveis. 
Seja por se tratar de processos muito mediáticos, de suspeitos conhecidos publicamente, ou mesmo de processos em segredo de justiça, as hierarquias podem ditar “esconder o expediente”. 
E, assim, nem um elemento com acesso pode consultar o processo. 
“É o “princípio da necessidade de saber”, conta um operacional da investigação criminal ao Observador.

O programa é controlado a partir da Direção Nacional da PSP. 
Paulo Rodrigues desconhece a existência de processos disciplinares a polícias que consultaram o que não deviam. 
Mas o operacional contactado pelo Observador admite que, mesmo sem processo, há muitos polícias a serem chamados a prestar declarações para justificarem porque acederam a determinada informação.
“Um processo mais mediático, que possa suscitar curiosidade, fica reservado a quem está ligado ao processo. Até é melhor para nós. Não havendo uma restrição total, há muitas garantias de acessos, há um grande controlo e um registo fidedigno do que se vai fazendo”, diz Paulo Rodrigues.
GNR lenta, PJ com níveis de acesso

Na GNR, explica o presidente da Associação Profissional da Guarda, o Sistema Informático de Apoio às Operações (SIOP) é muito semelhante. 
Embora dez anos depois de ter sido implementado ainda não estar disponível em todos os postos do País. 
“E por vezes é tão lento que é muito difícil aceder”, explica ao Observador César Nogueira. Uma lentidão que mesmo assim permite dissuadir curiosidades.

Na Polícia Judiciária, idem. 
Os níveis de acesso são definidos de acordo com “a complexidade de processos ou pessoas envolvidas e com a necessidade de aceder”, explica Carlos Garcia. 
O presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal diz que cada inspetor só tem acesso aos inquéritos da sua diretoria. 
Por exemplo, quem está na corrupção só acede a um inquérito da droga se pedir autorização superior e justificar as suas motivações. 
Por outro lado, também é possível que o coordenador da investigação sugira à hierarquia ocultar determinado processo do sistema – pelo seu mediatismo ou sensibilidade.

Níveis de segurança no MP

No Ministério Público há níveis de segurança. 
Mas tudo funciona de forma diferente. 
Um procurador do Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa tem acesso a um sistema próprio, que mais ninguém tem fora de Lisboa – o Sistema de Gestão de Inquéritos (SGI). 
E por ordem da responsável pelo DIAP, Maria José Morgado, não há acesso ao famoso CITIUS por falta de segurança.

O Departamento Central de Investigação e Ação Penal, por seu turno – onde têm caído os processos mais mediáticos, como é o caso de José Sócrates – tem acesso a todo o sistema sem grandes restrições. 
Já fora de Lisboa, os magistrados só têm acesso aos processos das suas comarcas e das suas matérias. 
Quem investiga um processo-crime não pode aceder a um processo cível.
“Os magistrados têm um sistema muito limitado de informação. Não têm acesso às bases de dados em termos gerais, não sabem ao que se passa na polícia. Só sabem da própria comarca. Se uma pessoa tiver processos pendentes noutra comarca, o magistrado não consegue saber”, revela ao Observador António Ventinhas, procurador na comarca de Faro.
Dentro das restrições, no entanto, pode um procurador consultar outros processos para perceber se há outros relacionados com o seu, que possam ser apensados. 
Não é alvo de qualquer processo por o fazer. 
Ao contrário de um polícia. 
Recorde-se, no entanto, que em junho de 2014 duas magistradas foram condenadas, depois de terem sido afastadas do Ministério Público por terem acedido a informação indevida. 
Neste caso, estavam em causa sistemas externos ao SGI que permitem aos magistrados aceder a informações pessoais de cidadãos. 
Também elas com restrições: um procurador pode saber a morada de um contribuinte através do NIF, mas não pode consultar as suas declarações fiscais, por exemplo.

Lista VIP. Fisco atuou em pleno caso Tecnoforma

Caso Tecnoforma rebentou em setembro de 2014 depois de denúncia anónima sobre alegados rendimentos de Passos
LISTA VIP de CONTRIBUINTES
18/3/2015, 18:37
Rita Dinis
Primeiras iniciativas da Autoridade Tributária sobre um sistema de alarme interno para proteger determinados contribuintes foram tomadas quando rebentaram as dúvidas sobre rendimentos de Passos.

Os mecanismos internos de alarme propostos pelo Fisco alegadamente para proteger determinados contribuintes de acesso indevido aos dados foram estudados pela primeira vez em setembro de 2014, precisamente na altura em que a comunicação social dava conta de eventuais irregularidades nos rendimentos de Passos quando era deputado em regime de exclusividade.

O caso começa a 18 de setembro quando a revista Sábado noticiou ter sido entregue na Procuradoria-Geral da República uma denúncia anónima que dizia que Passos recebera 5.000 euros por mês da Tecnoforma a recibos verdes entre 1995 e 1998. 
Na sequência disso, a 26 de setembro de 2014, o jornal i dava conta de uma alegada declaração de IRS de Pedro Passos Coelho, onde constava que o atual primeiro-ministro não tinha declarado qualquer rendimento da Tecnoforma nas declarações entregues em 1996 a 1999, período em que tinha sido deputado em regime de exclusividade. 
Agora, na carta que enviou à ministra das Finanças, o chefe demissionário do Fisco admite que foi precisamente em setembro do ano passado que propôs a criação de um sistema de alarme interno para proteger determinados contribuintes.

Em setembro, o jornal i divulgava então uma declaração de IRS de Pedro Passos Coelho, que depois se veio a confirmar não ser igual à que o primeiro-ministro divulgou através da Assembleia, onde não constavam rendimentos relativos ao seu trabalho na Tecnoforma entre 1996 e 1999, altura em que era deputado em regime de exclusividade. 
O jornal dizia que nesse período Passos Coelho tinha declarado apenas rendimentos de trabalho dependente, que resultavam num total de cerca de 40.500 euros, 42.000 euros e 43.000 euros, respetivamente.

Nesse mesmo dia 26 de setembro, o primeiro-ministro foi ao Parlamento anunciar, durante um debate quinzenal, que autorizava a divulgação de parte das suas declarações de IRS, tornando públicas as partes que compreendiam os seus rendimentos auferidos durante o período em questão.

Mas terá sido precisamente nessa altura, no auge do caso Tecnoforma, que o Fisco atuou para apertar o cerco à consulta de dados fiscais de determinados contribuintes. 
Na carta de demissão que António Brigas Afonso remeteu à ministra da tutela, lê-se que, em setembro de 2014, a segurança informática da Autoridade Tributária propôs a criação de um procedimento de controlo de acesso aos dados, com mecanismos de alerta de determinados contribuintes e verificação da legalidade das respetivas consultas.

A proposta feita pelo departamento informático teve rapidamente um parecer favorável da direção do Fisco. 
“Em outubro de 2014, o subdiretor-geral despachou favoravelmente essa informação”, propondo uma “medida definitiva de salvaguarda do sigilo fiscal”, escreve Brigas Afonso. 
O ex-diretor garante, contudo, que “nunca foi recebida a proposta definitiva de concretização da medida de controlo”, mas sem explicar por que razão, depois de várias confirmações, esse controlo não foi em frente.

Ao mesmo tempo que era criado este mecanismo de controlo com sistemas de alerta para determinados contribuintes, Brigas Afonso decidia também abrir uma auditoria para apurar a origem de uma eventual violação do sigilo fiscal relativamente ao primeiro-ministro, que enfrentava acusações de não-declaração de rendimentos da Tecnoforma. 
Na carta que enviou à tutela, Brigas Afonso ressalva, no entanto, que esta auditoria relacionada com o acesso aos dados fiscais de Passos Coelho, não teve relação direta com a proposta que era feita na mesma altura sobre a criação do sistema de alarme para determinados contribuintes. 
Ou seja, os novos mecanismos de controlo informático foram adotados “paralelamente, de forma totalmente autónoma sem qualquer relação” com as notícias na comunicação social.

Como consequência dessa auditoria, diz Brigas Afonso, concluiu-se que 69,7% das consultas dos dados fiscais do primeiro-ministro tinham sido feitas apenas por “mera curiosidade”. 
Brigas Afonso garante que esses dados lhe suscitaram “preocupação” mas que não deu conhecimento deles à tutela.

O ex-chefe do Fisco garante na mesma carta que não há relação direta entre o caso das consultas aos dados fiscais do primeiro-ministro no caso Tecnoforma e as medidas de controlo interno que foram efetivamente propostas. 
Brigas Afonso garante ainda que essa proposta para controlar e proteger o acesso aos dados de determinados contribuintes nunca se chegou a traduzir na criação de uma lista VIP.

Lista de contribuintes VIP. Sindicato alertou diretor-geral em janeiro

LISTA VIP de CONTRIBUINTES
18/3/2015, 16:25
Ana Suspiro
Desde dezembro que havia um anormal número de processos disciplinares e mails de funcionários a avisar para vigilância de acessos não autorizados. 
Lista VIP foi falada com diretor-geral em janeiro

O Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos deu o primeiro alerta para a eventual existência de uma lista ou bolsa VIP de contribuintes em janeiro deste ano. 
Nesta reunião esteve presente o diretor-geral da Autoridade Tributária e Aduaneira (AT), António Brigas Afonso, que se demitiu esta quarta-feira, adiantou ao Observador, o presidente do sindicato, Paulo Ralha.

O encontro realizou-se logo a seguir às ações de formação desenvolvidas no dia 20 de janeiro, em que um alto quadro do Fisco revelou a existência de uma bolsa ou pacote VIP (very important persons) de contribuintes mediáticos, ligados sobretudo à esfera politica, em ações de formação em que participaram centenas de inspetores estagiários.

Nesta reunião com o sindicato, António Brigas Afonso pouco disse. 
Já o subdiretor-geral de justiça tributária terá apoiado a abertura de processos disciplinares em casos de acesso indevido ou não justificado a declarações fiscais. 
Ninguém na reunião confirmou a existência de um filtro ou alerta informático para detetar acessos a declarações de personalidades mediáticas, ligadas sobretudo à esfera política.

Na mensagem de despedida, o diretor-geral demissionário nega a existência de uma lista, mas refere que foram testados novos métodos de proteção dos dados pessoais dos contribuintes e contra acessos ilícitos, que não terão sido implementados.

O aumento exponencial do número de processos disciplinares já tinha sido abordado em dezembro entre o Sindicato dos Trabalhadores de Impostos e o subdiretor de Recursos Humanos da Autoridade Tributária que respondeu que o tema o ultrapassava. 
Por esta altura, ainda não havia uma ligação clara entre os processos e os dados fiscais dos tais contribuintes VIP, embora houvesse desconfiança de que existiria uma relação com a divulgação, em outubro de 2014, de dados fiscais do primeiro-ministro, no quadro do caso Tecnoforma.

Mails de aviso

Para além dos processos disciplinares, havia ainda “centenas de mails” a circular entre os funcionários do Fisco a avisar os colegas para terem cuidado nos acessos ao sistema informático porque estariam a ser vigiados.

De acordo com o presidente do sindicato foram já instaurados 33 processos disciplinares, há outros cinco casos em averiguação e mais de 100 pessoas notificadas para serem ouvidas. 
O número normal de processos deste tipo era dois ou três por ano, acrescenta Paulo Ralha. 
O Sindicado dos Trabalhadores dos Impostos é ouvido esta quinta-feira na comissão de orçamento e finanças do Parlamento. 
Sexta-feira será a vez do secretário de estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, e do diretor-geral demissionário, António Brigas Afonso.

Gravações revelam bolsa e pacote VIP

Para alem destes dados, o sindicato tem várias gravações das ações de formação realizadas no dia 20 de janeiro, em que o diretor dos serviços de auditoria da AT se refere à existência de uma espécie de lista de contribuintes VIP. 
A gravação das declarações de Vítor Lourenço, divulgada pela revista Visão, revela que de manhã, na Torre do Tombo foi usada a expressão bolsa VIP de contribuintes perante 300 inspetores estagiários. 
Na tarde do mesmo dia, o responsável usou a expressão pacote VIP numa audiência de 200 pessoas.

O sindicato dos impostos ainda não foi contactado para facultar esta informação no quadro da investigação pedida à Inspeção-Geral de Finanças (IGF). 
Paulo Ralha manifesta aliás desconfiança em relação à independência de uma auditoria da IGF, lembrando que esta entidade, que é responsável pelo controlo interno do Estado, depende também da ministra das Finanças, tal como a Autoridade Tributária. 
Seria preferível que a auditoria fosse realizada por uma entidade externa e independente, sob a tutela da Procuradoria-Geral da República.

O que Passos Coelho disse no Parlamento sobre a lista de contribuintes VIP

Conheça o que disse Passos Coelho sobre a lista VIP de contribuintes
LISTA VIP de CONTRIBUINTES
18/3/2015, 13:50
Passos Coelho negou a existência de uma lista de contribuintes VIP porque a Autoridade Tributária também o fez. 
Conheça as citações do primeiro-ministro sobre o assunto no último debate quinzenal.

No debate quinzenal da semana passada Passos Coelho negou claramente a existência de uma lista de contribuintes VIP.
“Já é público que a Autoridade Tributária desmentiu essas notícias”
 “Não há nenhuma bolsa VIP”.
As notícias da existência desta lista surgiram depois de o Jornal de Negócios noticiar que 27 funcionários do fisco iriam enfrentar um processo disciplinar por acederem aos dados do primeiro-ministro. 
Além do mais, esses processos aplicavam-se também aos trabalhadores que entraram no cadastro contributivo das pessoas que constariam de uma lista VIP de contribuintes, conforme afirmado o presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos.

Sobre estes processos, Passos Coelho disse que sabe aquilo que já havia explicado em declarações públicas.
“No que respeita a mim próprio, nunca agi pedido à AT a instauração de qualquer processo disciplinar ou de averiguação”.
O primeiro-ministro diz que soube da consulta ao seu processo através das notícias que foram publicadas.
“Fiquei a saber que não era só o meu caso”.
Para Passos Coelho, a responsabilidade está nas mãos da Autoridade Tributária.
“Os termos em que a AT procura averiguar internamente sobre a forma como cada funcionário atua é matéria da AT”.
Mas o que irritou o primeiro-ministro português foi Ferro Rodrigues, quando o líder da bancada parlamentar socialista o acusou de faltar à verdade.
“Acha que eu posso desmentir em nome da AT? Acha que eu posso dizer que a AT faz desta maneira ou doutra sem consultar a própria AT? Acha que eu respondo por todos os funcionários públicos que existem no Estado? Acha isto realista?”.

“Curiosidade” motivou 69,7% das consultas a dados fiscais de Passos Coelho

Brigas Afonso desencadeou a auditoria, que visava apurar a origem de uma eventual violação do segredo fiscal do PM
LISTA VIP de CONTRIBUINTES
18/3/2015, 13:48
Segundo uma auditoria interna, 69,7% das consultas ao registo fiscal de Passos Coelho deveram-se a "curiosidade", diz o ex-diretor da Autoridade Tributária, na carta de demissão enviada ao Governo.

Uma auditoria interna a consultas de dados pessoais do primeiro-ministro, Passos Coelho, concluiu que 69,7% dessas consultas foram feitas por mera curiosidade, afirma o diretor demissionário da Autoridade Tributária (AT) na carta de demissão enviada ao Governo.

A auditoria foi desencadeada em novembro do ano passado, pela Direção de Serviços de Auditoria Interna (DSAI), na sequência de um despacho do diretor demissionário da Autoridade Tributária (AT), Brigas Afonso, que visava apurar a origem de uma eventual violação do segredo fiscal do primeiro-ministro, Passos Coelho, na sequência de notícias sobre a sua situação fiscal.

Face aos resultados da auditoria, Brigas Afonso diz que o mesmo foi por ele visto “com preocupação, não tendo no entanto dado conhecimento” do mesmo à tutela.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos (STI), Paulo Ralha, tem denunciado nas últimas semanas a existência de uma lista de contribuintes VIP que terá sido anunciada aos trabalhadores dos impostos numa ação de formação para 300 inspetores tributários.

O sindicalista relaciona esta lista de contribuintes com os 140 processos disciplinares que foram abertos a trabalhadores dos impostos que, alegadamente, acederam a informação de contribuintes dessa lista, que inclui membros do Governo, empresários e outras figuras mediáticas.

O STI diz que os processos disciplinares aos trabalhadores dos impostos começaram a ser aplicados em dezembro, depois de ter sido noticiado que os funcionários da AT estavam a ser investigados por alegadamente terem consultado os dados fiscais do primeiro-ministro.

A existência dessa lista VIP foi negada várias vezes pelo diretor-geral demissionário da AT, inclusive hoje na carta de demissão ao Governo, que a Lusa teve acesso, e na qual justifica a sua demissão – menos de um ano depois de ter assumido o cargo – por não ter informado a tutela de procedimentos internos que podem ter criado a perceção de que essa lista existia.

A demissão de Brigas Afonso surge dois dias depois de o Ministério das Finanças ter anunciado que solicitou à Inspeção-Geral de Finanças (IGF) a abertura de um inquérito sobre a existência de uma alegada lista na AT de contribuintes VIP e um dia depois de a Procuradoria-geral da República (PGR) anunciar estar a recolher informação sobre a existência dessa lista de contribuintes VIP com o objetivo de avaliar se vai dar início a algum procedimento.

Gravações sobre Lista Vip: “Nós sabemos em online quem está a ter acesso”

A reunião em que se falou da lista VIP teve lugar dia 20 de janeiro
LISTA VIP de CONTRIBUINTES
ATUALIZADO
Miguel Santos
Gravações divulgadas pela revista Visão acrescentam dados a este caso. 
Vítor Lourenço, o chefe que deu a formação onde denunciou a situação, conta como se acedeu às contas de Passos e até de Cavaco.

“Existe neste momento um pacote de identificação de pessoas [que ocupam cargos políticos] que nós sabemos em online [em tempo real] quem está a ter acesso”, afirmou o chefe dos serviços de auditoria da Autoridade Tributária (AT), Vítor Lourenço, na ação de formação para 300 inspetores estagiários dia 20 de janeiro, de acordo com uma gravação da reunião, a que a Visão teve acesso e que publicou esta quarta-feira no seu site.

Segundo Vítor Lourenço, a AT tem referenciado um grupo de pessoas, cujo acesso de qualquer funcionário ao histórico fiscal faz imediatamente soar os alarmes. 
E que pessoas são essas? 
“As pessoas mais mediatizadas (…) que ocupam cargos políticos”, explicou Vítor Lourenço, para depois acrescentar que “não podemos [AT] divulgar quem [está] nesse pacote, que entre aspas chamamos ‘pacote VIP'”, que deteta em tempo real “eventuais acessos indevidos”.

O chefe dos serviços da auditoria da AT, no entanto, aproveitou para justificar a existência da lista/pacote VIP com a necessidade de impedir “a possibilidade ou a facilidade de entrar na privacidade” da generalidade dos contribuintes, não só dos VIP, como sublinhou Vítor Lourenço.
“Eu estou mais preocupado com os contribuintes em geral do que com os VIP, porque imagino que se se passa com os contribuintes VIP, o que não se passará com os contribuintes comuns, porque um funcionário tem a possibilidade, ou a facilidade, de entrar na privacidade de qualquer contribuinte sem qualquer fundamento”, afirmou Vítor Lourenço.
Na altura, o responsável do Fisco revelou também a existência de funcionários a braços com processos de inquérito – que depois evoluíram para processos disciplinares – na sequência do acesso indevido ao histórico contributivo de certas figuras que constam no “pacote VIP” – entre as quais Pedro Passos Coelho. 
Os mesmos funcionários que, segundo disse Vítor Lourenço, alegaram “mera curiosidade” para acederem à lista.
“É que as pessoas estavam convencidas de que não divulgando [a informação] não havia problema. Esse é que o ponto. É um problema da cultura e da formação também. (…) Todas as pessoas que foram inquiridas e eu, enfim, ouvi-os a todos, viram [o acesso aos dados] como mera curiosidade, com consciência de que não divulgando não haveria qualquer problema”, explicou.
O caso da divulgação dos dados do primeiro-ministro foi, aliás, um dos exemplos dados por Vítor Gonçalves na ação de formação para os inspetores estagiários. 
O chefe do Fisco começou por admitir que “há serviços locais ou distritais em que qualquer mecanismo [de controlo] que seja implementado é um bicho-de-sete-cabeças”, mas que sem este tipo de controlo aconteceriam mais situações como aquela que envolveu Pedro Passos Coelho. 
Ou seja, situações em que “sete pessoas” tiveram acesso aos dados” através de uma “única password“, o que depois tornou impossível determinar a fonte da fuga de informação, defendeu.

Neste caso, houve sete acessos diferentes com a mesma password, mas não se sabe quem foi. 
“Ninguém foi, não foi ninguém”, disse Vítor Lourenço, acrescentando que isso revela a “promiscuidade” existente no fisco, onde será fácil aceder a várias contas com passwords de outrem.

Mas o primeiro-ministro não foi o único citado. 
Também Cavaco Silva – outra figura que consta no “Pacote VIP” – viu o histórico contributivo vasculhado por uma funcionária do Fisco. 
Quando confrontada pelos responsáveis da AT, a funcionária confessou que apenas queria “saber quanto ganha o Presidente da República”.
“Tivemos conhecimento informático na hora. Em dois dias [a funcionária] estava a ser ouvida por nós. (…) [Mas], é difícil gerir uma reposta destas e tratava-se de um caso que nem sequer foi divulgado nos jornais. Antes de termos o pacote VIP, nós agíamos por impulso. Quando era publicado nos jornais é que nós lá íamos para saber o que se passou”, explicou Vítor Gonçalves.
Ainda assim, e apesar de elogiar o mecanismo criado para travar as fugas de informação e o acesso indevido aos dados dos contribuintes, o chefe do Fisco confessou que o sistema de informação da AT ainda estava longe da “perfeição”, até porque a aplicação “de um controlo interno mais alargado” exigia “milhões” que o Fisco não tem. 
O chamado “Pacote VIP” dos contribuintes foi a solução q.b., disse Vítor Gonçalves.
“[Para implementar] o controlo interno mais alargado é preciso mais não sei quantos milhões, mas não há dinheiro. Vamos procurar implementar a aplicação na ótica da operacionalidade e quanto ao controlo interno vamos pôr aqui o quanto baste. Só que às vezes não basta”.

Brigas Afonso assume sistema de alerta para determinados contribuintes

LISTA VIP de CONTRIBUINTES
18/3/2015, 13:28 138 PARTILHAS
Agência Lusa
Na carta enviada a Maria Luís, o chefe demissionário do Fisco confirma sistema de alarme interno para proteger determinados contribuintes, mas garante que tutela política não estava informada.

O diretor-geral da Autoridade Tributária (AT) reafirma que não existe uma lista VIP de contribuintes e justifica a demissão por não ter informado a tutela sobre procedimentos internos que podem ter criado a perceção de que essa lista existia.

“Tenho consciência de que, ao não ter informado a tutela destes procedimentos e estudos internos, possa ter involuntariamente contribuído para criar uma perceção errada sobre a existência de uma alegada lista de determinados contribuintes, razão pela qual coloco o lugar à disposição”, lê-se na carta de demissão, a que a Lusa teve acesso, escrita hoje por Brigas Afonso e enviada à ministra das Finanças, Marias Luís Albuquerque.

Na carta, o diretor-geral demissionário enfatiza que o Governo não teve qualquer intervenção nesta questão e que a AT “nunca” recebeu qualquer lista por parte de “nenhum membro do Governo” nem “nunca recebeu quaisquer instruções, escritas ou verbais, de qualquer membro deste Governo” para elaborar aquela lista, explicando ao longo da carta, de forma cronológica, os vários acontecimentos que agora levam à sua demissão.

A controvérsia criada à volta deste tema pode ter origem num conjunto de decisões internas da AT, explica Brigas Afonso, lembrando que a AT detém nos seus sistemas de arquivos informáticos informação cada vez mais pormenorizada acerca dos contribuintes, o que – na sua opinião – “obriga” a aperfeiçoar mecanismo que garantem que esses dados são apenas utilizados para o cumprimento da missão da AT.

A existência de mais informação nos sistemas e a repetição de situações que evidenciam a violação do direito dos contribuintes ao sigilo fiscal, como noticias sobre a situação fiscal de contribuintes, obrigam – segundo Brigas Afonso – o Fisco a aperfeiçoar mecanismos que garantem que os dados fiscais são somente utilizados para cumprimento das obrigações da AT.

Nesse sentido, acrescenta, têm sido propostas e ponderadas diversas metodologias de segurança já experimentadas a nível internacional, nomeadamente a identificação de segmentos ou grupos de contribuintes em que o risco de tentativas de acesso indevido seja mais elevado.

Em setembro do ano passado, explica Brigas Afonso na carta enviada à ministra das Finanças, a área de segurança informática da AT propôs um procedimento de controlo de acesso aos dados, com mecanismo de alerta de determinados contribuintes e verificação da legalidade das respetivas consultas.

No mês seguinte, em outubro, o subdiretor-geral, substituto-legal de Brigas Afonso despachou favoravelmente essa informação, solicitando uma avaliação sobre as medidas propostas e que fosse apresentada uma proposta de implementação de uma medida definitiva de salvaguarda do sigilo fiscal.

Paralelamente a este procedimento e de forma totalmente autónoma e sem relação com os acontecimentos anteriores de setembro e outubro, explica o diretor demissionário, foi decidido também em setembro, e “de acordo com procedimentos habituais”, abrir um procedimento de auditoria na sequência de notícias que revelavam indícios de violação do direito do primeiro-ministro, Passos Coelho, ao sigilo fiscal.

Brigas Afonso diz também que nos últimos anos foram abertos “diversos” procedimentos de auditoria e de inquérito com base em noticias publicadas na comunicação social, referentes a outros contribuintes, que não o primeiro-ministro.

E reafirma que todos os processos e procedimentos em questão são do foro estritamente interno da AT, não tendo origem na tutela política, que não teve conhecimento desses procedimentos em nenhuma fase.

Mas explica que, em resultado da sua decisão de setembro de averiguar fugas de informação sobre a situação fiscal de Passos Coelho, a direção-geral de Serviços de Auditoria Interna (DSAI) elaborou em novembro um relatório de auditoria a eventuais consultas de dados pessoais do primeiro-ministro, no qual é feita uma “desadequada e errada” referência à implementação de uma medida de controlo de acessos a determinados contribuintes.

Brigas Afonso garante ainda que nuca foi recebida por parte da DSAI a proposta de concretização da medida de controlo sugerida; nunca foi constituída qualquer lista de contribuintes nem acionados quaisquer alertas.

Por fim e já em fevereiro de 2015, Brigas Afonso, depois de analisar a medida e mais uma vez, sublinha, sem dar conhecimento à tutela, decidiu dar sem efeito aquele procedimento “por ter concluído que a utilização das tecnologias mais recentes proporciona modelos de auditoria com resultados mais eficientes e aplicáveis de forma transversal a todos os contribuintes”.

PS não afasta demissão de Núncio, mas não a pede para já

João Galamba quer tudo esclarecido
LISTA VIP de CONTRIBUINTES
ATUALIZADO
Rita Dinis, Liliane Valente e Agência Lusa
Partidos unânimes sobre necessidade de apurar responsabilidades e explicações. 
PS não pede para já demissão de Paulo Núncio, PSD diz que por agora só se sabe que informação dada não é 100% verdadeira.

O PS vai esperar para ver os esclarecimentos de Paulo Núncio no Parlamento, mas para já não pede a demissão do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. 
O PSD também quer ver o caso esclarecido, afirmando que as informações disponíveis até agora não confirmam a existência da lista, mas confirmam que as informações dadas pela Autoridade Tributária ao Governo “não correspondem 100% à verdade”.

Em declarações aos jornalistas na Assembleia da República, o deputado e secretário nacional do partido João Galamba disse que o PS vai “inquirir” o secretário de Estado e que é preciso perceber primeiro quem é o responsável pela “lista” que “aparentemente existe”. “Esperemos pelos esclarecimentos para apurar todas as responsabilidades”, acrescentou.
“Vamos aguardar pelas explicações cabais do secretário de Estado. É um assunto demasiado sério para que subsistam dúvidas. O Parlamento é a sede própria para fazer esse debate”, disse. O pedido de responsabilidades políticas pode assim ficar para depois, para já, socialista prefere criticar a atuação do governante dizendo que a “primeira coisa” que Paulo Núncio fez foi “culpar os serviços que tutela”, à semelhança, disse, do que aconteceu na Educação e na Saúde: “O que sabemos é que o Governo, cada vez que há um problema, culpa os serviços”.
Já o PSD não admite a existência de lista VIP, mas confirma que as informações reveladas pelo diretor-geral da Autoridade Tributária, agora demissionário, “não correspondem 100% à verdade”. 
Caso contrário não teria havido demissão. 
E por isso quer ouvir os responsáveis no Parlamento para apurar “o que realmente aconteceu”. 
As audições de António Brigas Afonso e do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, foram aprovadas esta manhã por unanimidade em sede de comissão parlamentar, e devem ter lugar ainda esta semana.
“A avaliar pelas informações de que dispomos não se confirma a existência da lista VIP de contribuintes, o que se confirma é que as informações dadas não correspondem 100% à verdade. Se a informação [dada pelo diretor-geral da AT nos últimos dias] fosse 100% verdadeira ele não se teria demitido”, afirmou o deputado Duarte Pacheco reagindo à demissão do dirigente anunciada esta quarta-feira.
Quando estoirou a polémica da eventual existência de uma lista VIP de contribuintes, o Governo apressou-se a negar a existência da lista, nomeadamente pela voz do primeiro-ministro que, no último debate quinzenal, garantiu que não tinha conhecimento de qualquer lista e que a Autoridade Tributária lhe tinha dito que informação era falsa. 
“O Governo falou com base na informação dada pela Autoridade Tributária, se a Autoridade Tributária diz que não há lista ninguém pode dizer que a informação é falsa”, defendeu Duarte Pacheco, acrescentando que foi por isso que foi aberta uma investigação.

Ou seja, “é o próprio diretor da Autoridade Tributária que tem de explicar o que aconteceu na realidade”, afirmou Duarte Pacheco.

Também Cecília Meireles, vice-presidente da bancada do CDS-PP, reagiu à mais recente polémica, lembrando que a demissão do diretor da Autoridade Tributária é uma prova “clara” de que “o Governo nunca pediu ou deu instruções para que houvesse listas especiais”.
“As audições que aprovamos na Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública (COFAP), algumas das quais propostas pela maioria, permitirão esclarecer cabalmente tudo o que se passou. Desde já, há algumas coisas que temos como certas: o Governo nunca pediu ou deu instruções para que houvesse listas especiais, a segunda, é que há de facto alguma coisa”, afirmou Cecília Meireles. 
Questionada sobre as razões que a levam a garantir que o executivo – em que o centrista Paulo Núncio é secretário de Estado dos Assuntos Fiscais -, não deu tais instruções, Cecília Meireles respondeu: “Porque o próprio Governo já o garantiu, e daquilo que é dito pelo próprio diretor-geral da Autoridade Tributária, isso resulta claro”.

A ‘vice’ da bancada centrista afirmou ainda que “do ponto de vista dos princípios está claro é que o sigilo fiscal é um direito fundamental de todos os cidadãos e não pode haver listas especiais de cidadãos”.

Do lado do PCP, pela voz de Paulo Sá, vieram avisos para a extrema gravidade da situação caso se confirme que o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais terá dado instruções para a criação de uma lista de contribuintes VIP.
“Agora [que] todos os dados apontam para a existência dessa lista VIP de contribuintes (…) É preciso saber como foi criada esta lista VIP de contribuintes – e há notícias que indicam que terá sido criada por iniciativa do Governo, por intermédio do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais [Paulo Núncio], que terá ele próprio dado orientações à Autoridade Tributária e Aduaneira para criar essa lista. Se isso se confirmar, estamos perante uma situação de extrema gravidade, porque é intolerável que o Governo atue desta forma“, avisou o deputado do PCP.
Perante os jornalistas, Paulo Sá afirmou ainda que é preciso apurar como é que criação desta lista VIP “se coaduna com a propaganda do Governo sobre combate à fraude e evasão fiscal”.
“Os trabalhadores da administração fiscal, no âmbito das suas funções – e no estrito respeito pela lei -, precisam de consultar dados de contribuintes, exatamente para averiguar se há ou não fraude e evasão fiscal. Pelos vistos, pela existência dessa lista VIP, mostra que os trabalhadores estão limitados e não podem aceder aos dados de certos contribuintes VIP”, apontou.
O discurso mais duro, no entanto, veio do Bloco de Esquerda, com o líder parlamentar Pedro Filipe Soares a apontar o dedo ao primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, por ter “garantido na Assembleia da República que não havia uma lista VIP”.
“Não disse não sabia ou que iria averiguar, garantiu que não havia”, disse o bloquista, afirmando que a situação “não pode passar sem consequências” para ao Governo.
O deputado ecologista José Luís Ferreira afinou pelo mesmo diapasão e acusou o Governo de estar “a faltar à verdade”. 
Resta saber se foi porque “não era detentores de todos os factos” ou se “faltaram à verdade pura e simplesmente”, afirmou o deputado do PEV.
“A existência de uma lista de contribuintes VIP foi negada pelo senhor secretário de Estado Paulo Núncio, pela senhora ministra das Finanças e, inclusivamente, pelo senhor primeiro-ministro aqui no plenário da Assembleia da República, isto significa que estes três membros do Governo ou estão a faltar à verdade porque não eram detentores de todos os factos ou faltaram à verdade pura e simplesmente”, afirmou.
Segundo a revista Visão, Paulo Núncio rejeita qualquer responsabilidade do Governo na alegada lista VIP de contribuintes mas admite que o documento possa existir. 
“Houve procedimentos internos e propostas no âmbito da Autoridade Tributária nesta matéria, sem que jamais o Governo tenha tido conhecimento dessa questão ou que o Governo tenha sido informado”, disse o secretário de Estado, citado pela revista.

Carta de despedida: Chefe do fisco admite novos métodos de prevenção contra a intrusão

Paulo Núncio tutela a autoridade tributária
LISTA VIP de CONTRIBUINTES
18/3/2015, 12:01
Helena Pereira
Brigas Afonso enviou email de despedida aos funcionários da Autoridade Tributária em que admite que estão a ser ponderados novos métodos de proteção de dados, mas sem estarem ainda em ação.

António Brigas Afonso, diretor-geral demissionário da Autoridade Tributária (AT), enviou uma email de despedida aos funcionários do fisco em que nega categoricamente a existência de uma lista VIP de contribuintes, mas em que admite ao mesmo tempo que foram ponderados e testados novos métodos de proteção dos dados de contribuintes.

“A importância e a sensibilidade da proteção dos dados pessoais dos contribuintes exigem da AT a adoção de metodologias preventivas, e não apenas reativas, contra a intrusão e o acesso ilícito, estando a ser ponderadas novas alternativas, mas sem que nenhuma tenha sido até agora implementada“, escreveu Brigas Afonso, no email a que o Observador teve acesso, sem que especifique mais estes procedimentos.

Quanto à alegada lista VIP diz que “essa lista não existe e nunca existiu, como a AT já informou” e que “todos os processos disciplinares que são do conhecimento público resultam exclusivamente de notícias publicadas nos jornais com violações consumadas do direito ao sigilo e de queixas de contribuintes individuais sobre acessos indevidos aos seus dados pessoais”. 
Mais: “Não foi aberto nenhum processo contra funcionários que efetuaram consultas no exercício das suas funções”.

O ex-chefe do fisco explica que o seu pedido de demissão destina-se, assim, a “proteger a AT da polémica que já se situa fora do âmbito da proteção de dados pessoais e do patamar institucional da AT e destina-se a proteger a instituição e os seus funcionários”.

Brigas Afonso, que esteve no cargo oito meses, termina com elogios aos seus funcionários. “Ao longo do meu curto mandato constatei o alto relevo da missão da AT e a excelência dos seus funcionários, bem como o elevado prestígio a que o vosso trabalho nos conduziu, tanto a nível nacional como internacional”, escreveu no email enviado pouco depois das 11 da manhã, já depois de a sua demissão ter sido confirmada e anunciada pelo Ministério das Finanças. 
“Quero agradecer a todos a vossa ajuda neste período difícil, de muitas provações e dificuldades, em especial a maioria de vós, que trabalha num ambiente de extrema escassez de recursos e de exigências cada vez mais difíceis. 
Tenho a certeza de que o país saberá reconhecer o vosso trabalho de excecional mérito e sentido de missão”, termina a carta.

Em declarações à Visão esta quarta-feira, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, declarou que “houve procedimentos internos e propostas no âmbito da Autoridade Tributária nesta matéria, sem que jamais o Governo tenha tido conhecimento dessa questão ou que o Governo tenha sido informado”.

Leia aqui na íntegra:

Caros Colegas colaboradores da AT,
Apesar de já não ser possível dar-vos conhecimento, em primeira mão, quero informar-vos que apresentei hoje o meu pedido de demissão à Senhora Ministra de Estado e das Finanças, na sequência das notícias que têm vindo a ser publicadas acerca da alegada existência de uma lista de contribuintes de acesso restrito a funcionários da AT. Essa lista não existe e nunca existiu, como a AT já informou. Todos os processos disciplinares que são do conhecimento público resultam exclusivamente de notícias publicadas nos jornais com violações consumadas do direito ao sigilo e de queixas de contribuintes individuais sobre acessos indevidos aos seus dados pessoais. Não foi aberto nenhum processo contra funcionários que efetuaram consultas no exercício das suas funções.
A importância e a sensibilidade da proteção dos dados pessoais dos contribuintes exigem da AT a adoção de metodologias preventivas, e não apenas reativas, contra a intrusão e o acesso ilícito, estando a ser ponderadas novas alternativas, mas sem que nenhuma tenha sido até agora implementada.
O meu pedido de demissão destina-se apenas a proteger a AT da polémica que já se situa fora do âmbito da proteção de dados pessoais e do patamar institucional da AT. Destina-se a proteger esta Instituição e os seus funcionários.
Ao longo do meu curto mandato constatei o alto relevo da missão da AT e a excelência dos seus funcionários, bem como o elevado prestígio a que o vosso trabalho nos conduziu, tanto a nível nacional como internacional. Quero agradecer a todos a vossa ajuda neste período difícil, de muitas provações e dificuldades, em especial a maioria de vós, que trabalha num ambiente de extrema escassez de recursos e de exigências cada vez mais difíceis. Tenho a certeza de que o País saberá reconhecer o vosso trabalho de excecional mérito e sentido de missão.
Foi um grande privilégio dirigir esta Casa. Como sempre, continuo a ser um de vós.
Com os melhores cumprimentos.
António Brigas Afonso.

Diretor-geral da Autoridade Tributária e Aduaneira demite-se

LISTA VIP de CONTRIBUINTES
ATUALIZADO 789 PARTILHAS
Edgar Caetano e David Dinis
Brigas Afonso apresentou demissão, na sequência da controvérsia com a "Lista VIP" de contribuintes. 
Pedido foi aceite pela ministra das Finanças. 
Paulo Núncio admite ir ao Parlamento dar explicações

António Brigas Afonso, diretor-geral da Autoridade Tributária e Aduaneira (AT), apresentou a demissão esta quarta-feira, na sequência da controvérsia com a “Lista VIP” de contribuintes, confirmou o Observador. 
O pedido foi aceite pelo Ministério das Finanças, confirma o Ministério em comunicado, sem adiantar para já qualquer informação adicional. 
Nada indica, para já, que o lugar de Paulo Núncio esteja em risco, apesar de a auditoria que foi determinada já ter indícios que a polémica lista, sempre categoricamente desmentida pelo Governo, poder existir.

No cargo há nove meses, António Brigas Afonso, substituiu em julho o antigo chefe do fisco, José Azevedo Pereira. 
Antes disso, Brigas Afonso era subdiretor-geral da AT na área dos impostos especiais sobre o consumo.

Em declarações aos jornalistas esta quarta-feira, transmitidas pela SIC Notícias, Paulo Núncio  diz que “esta não é o momento para clarificar” a situação. 
O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais garante estar “totalmente disponível” para ir ao Parlamento, “porque entendo que o Parlamento é o local certo para que sejam prestados mais esclarecimentos sobre esta matéria”. 
Paulo Núncio acrescentou que “o governo recebeu da AT a confirmação de que não existia essa lista mas, por outro lado, existem rumores e notícias em sentido contrário”.

Ouvido pela TSF, Paulo Ralha, presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos, diz que recebeu a notícia “com um misto de surpresa e de fatalidade”.
“O Dr. Brigas Afonso não pode ser responsabilizado pelo que se passou com a Lista VIP, mas é responsável máximo da casa”, acrescentou Paulo Ralha, elogiando a “franqueza” do agora ex-diretor-geral da AT. 
Paulo Ralha diz que António Brigas Afonso terá sido “apanhado desprevenido” pela existência desta lista quando assumiu o cargo.

A existência de uma lista de contribuintes VIP, personalidades mediáticas de várias áreas, terá sido divulgada numa formação para inspetores tributários estagiários realizada a 20 de janeiro. 
A notícia, avançada pela revista Visão, tem por base o testemunho de participantes na sessão que decorreu na Torre do Tombo, que contrariam a versão oficial do governo segundo a qual a tal lista não existe. 
Também o presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos (STI), Paulo Ralha, veio a afirmar que existe uma bolsa de contribuintes VIP no Fisco.

Depois de ter repetido que “nunca foram dadas instruções à Autoridade Tributária para elaborar qualquer tipo de listas de contribuintes”, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, garantiu que a sua resposta não implica que esteja afastada a realização de uma auditoria ao caso da lista VIP de contribuintes, que foi sugerida por um vice-presidente do PSD e defendida pelo PCP e Bloco de Esquerda. 
Paulo Núncio insistiu nunca ter “elaborado ou entregado” qualquer lista de contribuintes à Autoridade Tributária (AT), assim como nunca ter dado "instruções" para a AT o fazer.

Na segunda-feira, inspetores da Autoridade Tributária denunciaram um "clima de medo, insegurança e intranqualidade"  na sequência do aviso de que haveria uma lista VIP de contribuintes, que ao ser consultada faria disparar um alarme informático.

Nesse mesmo dia, o Ministério das Finanças mandou abrir uma auditoria à alegada lista VIP de contribuintes da Autoridade Tributária. 
“Tendo em conta notícias vindas recentemente a público, o Ministério das Finanças comunica que solicitou hoje à Inspeção-Geral de Finanças (IGF) a abertura de um inquérito sobre a alegada existência de uma lista de contribuintes na Autoridade Tributária e Aduaneira (AT), cujo acesso seria alegadamente restrito. 
Este inquérito, a realizar pela IGF, enquanto entidade externa da AT, destina-se a realizar o apuramento de todos os factos relativos a este assunto”, informou o gabinete de Maria Luís Albuquerque no dia 16.