João Galamba, porta-voz do PS, diz que o aumento dos dividendos pagos pelo Banco de Portugal ao Estado é uma forma "indolor" de equilibrar as contas públicas.
Quando, em maio de 2016, o Banco de Portugal anunciou que iria pagar (apenas) 186 milhões de euros em dividendos ao Estado, não tardaram as acusações de que tinha a mão demasiado fechada.
O governador Carlos Costa e a sua liderança foi, mesmo, acusada por um professor universitário de estar a “esconder lucros”, sobretudo sabendo-se que a compra de dívida pública no mercado estava a dar lucros significativos ao banco central.
As compras de dívida davam lucros mas, todavia, também significavam mais risco para os livros do banco central, e a política seguida foi de prudência — colocou-se de parte um valor elevado em provisões, que subtraíram aos lucros e, portanto, aos dividendos. Quase um ano volvido, as compras continuaram, à velocidade de cruzeiro de cerca de mil milhões de euros por mês, mas a política parece ter mudado e os dividendos devem quase triplicar neste ano, fruto de menores provisões, o que está a ser lido por alguns como uma decisão de um banco central autónomo que não foi impermeável ao poder político.
Numa entrevista em vídeo ao Observador, o porta-voz do Partido Socialista (PS) João Galamba deu uma primeira explicação para que os dividendos subam de 183 para 450 milhões de um ano para o outro, sem que nada tenha mudado nas compras de dívida e apesar de haver uma perceção de risco mais gravosa face à dívida portuguesa.
“O programa de compra de dívida é conhecido e isso [o pagamento dos dividendos] foi, certamente, articulado entre o acionista Estado e o conselho de administração como, aliás, é normal em qualquer empresa ou instituição que pague dividendos.
A política de distribuição de dividendos é, sempre, algo acordado entre a administração e os seus acionistas e não me parece que haja aí qualquer incerteza”.
João Galamba afirmou que estes 450 milhões de euros seriam uma “receita importante que, existindo, impedem aumentos de impostos sobre empresas e famílias”.
“É uma maneira indolor de fazermos consolidação orçamental“, rematou o deputado socialista.
O Orçamento está a contar com 450 milhões de euros em dividendos relativos ao exercício de 2016, um valor muito acima da média dos últimos anos, como o Observador apontou assim que a proposta foi entregue no Parlamento, no dia 14 de outubro.
A diferença entre o valor de dividendos pagos no ano passado e este ano chega (e sobra) para suportar o aumento das pensões anunciado pelo governo.
A negociação do Orçamento foi, como é frequente, fechada na última hora — mas, segundo apurou o Observador, o volume dos dividendos do Banco de Portugal foi uma matéria “articulada” desde cedo, e fechada nas vésperas de o primeiro-ministro, António Costa, viajar para a China.
Na véspera da apresentação da proposta de Orçamento, o Jornal de Negócios adiantava que o PS e o Bloco de Esquerda estavam a estudar alguma forma de ir buscar uma fatia maior dos lucros do banco central, procurando obter um valor superior do que o habitual para ajudar nas contas do défice orçamental.
O Eurosistema comprou, até ao final de setembro, 21,8 mil millhões de euros em dívida pública portuguesa, e o risco da maior parte das compras de dívida assenta no Banco de Portugal, que é o ator que compra os títulos no dia-a-dia, nos mercados.
As obrigações compradas pagam juros e têm preços inferiores aos 100% que são reembolsados na maturidade — o que faz com que estas operações estejam a ser lucrativas para o comprador, o Banco de Portugal.
Quando forem apresentados os resultados de 2016, na próxima primavera, será possível ter uma imagem mais fiel de quantos lucros com estas operações foi possível obter.
E será conhecida, também, a justificação do banco central para o que está a ser lido como uma mudança de política no que diz respeito ao provisionamento.
O jornal Público noticiou esta semana que havia “tensão” dentro do Banco de Portugal, uma notícia baseada numa fonte da instituição, não identificada, e num aparente desabafo de um homem próximo de Carlos Costa, José Bracinha Vieira, que num post no Facebook (entretanto apagado) falou num “saque” ao Banco de Portugal que arriscava “descapitalizar” a instituição.
Bracinha Vieira, que é consultor e adjunto da direção do Banco de Portugal, criticava estar a distribuir-se quase o triplo dos dividendos (em comparação com o ano passado) “à custa da criação de provisões para a carteira de dívida pública portuguesa que, com o aumento dos juros deste ano e o que vier a ocorrer nos próximos tempos levará a uma desvalorização desses títulos e a imparidades que podem levar à descapitalização do banco central”.
Tudo isto para, na opinião de Bracinha Vieira, se “disfarçar o défice”.
Risco e juros da dívida nacional estiveram mais elevados em 2016










