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sexta-feira, 14 de julho de 2017

Um guia sobre o negócio Altice-TVI

PERGUNTAS E RESPOSTAS
PEDRO FERREIRA ESTEVES 14 de Julho de 2017, 20:47
A Altice comprou a quase totalidade da Media Capital por 440 milhões de euros. 
E já definiu a estratégia para o grupo, com aposta no digital. Mas até fechar o negócio enfrenta alguns obstáculos.




O que compra a Altice?
A Altice chegou a acordo com o grupo espanhol Prisa para comprar o grupo Media Capital por 440 milhões de euros. 
Para já, compra 94,7% do capital na posse da Prisa e, entretanto, a Meo já lançou uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre os restantes 5,3% que estão dispersos na Bolsa de Lisboa. 
A dona da PT Portugal compra a TVI, líder de audiências no prime-time e que detém vários canais por cabo, as rádios da Media Capital, entre as quais a líder Rádio Comercial, e a Media Capital Digital, que detém o portal IOL e a plataforma TVI Player. 
A operação inclui ainda a Plural Entertainment, a líder da produção audiovisual em Portugal.

Porque é que a Altice quer a Media Capital?
O grupo que detém a PT Portugal tem uma estratégia de convergência: integrar telecomunicações com media, com forte apoio tecnológico e aposta no digital. 
Em França e nos Estados Unidos, principais mercados onde tem presença, controla canais de televisão, imprensa, direitos televisivos de futebol e de entretenimento. 
O que lhe permite reforçar a oferta de telecomunicações com conteúdos próprios, em muitos casos exclusivos. 
No caso da Media Capital, já prometeu que vai manter aberto o acesso dos concorrentes aos conteúdos. 
Por outro lado, a Altice diz que pretende investir no crescimento da oferta da Media Capital, admitindo o lançamento de novos canais, aposta em novos produtos digitais e na exportação de conteúdos e produção da TVI e Plural para os outros mercados onde está presente, Estados Unidos e França.

Porque quer a Prisa vender a Media Capital?
A Prisa enfrenta pressões de accionistas para melhorar as contas, nomeadamente no que diz respeito à sua dívida líquida, que está perto dos 1500 milhões de euros. 
Daí que tenha iniciado há algum tempo um programa de venda de activos, entre os quais estão a Media Capital e a editora Santillana 
O preço oferecido pela Altice compara com os 190 milhões de euros que a Prisa pagou em 2005 por 33% do capital da Media Capital. 
E pressupõe perdas contabilísticas de 81 milhões nas contas da Prisa. 
No primeiro trimestre, a Prisa teve um lucro líquido de 22 milhões de euros, um crescimento de 70%.

Como estão as contas da Media Capital?
A crise da publicidade em Portugal forçou um corte de custos na Media Capital que se traduziu, em 2016, por uma facturação de 174 milhões de euros, ainda assim com um lucro de 19 milhões de euros. 
No arranque do ano, assistiu-se a uma degradação de todos os indicadores da empresa, com quedas tanto nas receitas de publicidade, como nos resultados operacionais e em todos os segmentos, desde a rádio, à televisão, passando pela produção. 
Ainda assim, os resultados líquidos melhoraram ligeiramente, graças sobretudo a razões contabilísticas e fiscais.

Que obstáculos enfrenta a operação?
A operação terá de receber a aprovação das autoridades de Concorrência, nacionais e eventualmente europeias, para além do regulador português dos media, a ERC, que terão de analisar se a concentração dos conteúdos da Media Capital na oferta de telecomunicações da Meo não coloca problemas de concorrência, em termos de acesso e preço. 
Por outro lado, a PT Portugal controla infra-estrutura partilhada – e paga – pelos concorrentes na distribuição dos seus serviços de televisão e rádio ou digital, o que também poderá estar na mira das autoridades. 
Por outro lado, a proposta da Altice tem de ser aprovada em Espanha, primeiro pelos bancos credores da Prisa e, depois, pelos accionistas do grupo espanhol.

Ao minuto: patrão da Altice reúne-se com Marcelo e Costa



17:11
Encerramos por aqui este acompanhamento ao minuto da compra da Media Capital (TVI) pela Altice. Continuaremos a acompanhar o tema com outros textos ao longo do dia.

16:46
Patrick Drahi ao PÚBLICO: "Se António Costa tem queixas não é com a Altice"

Em declarações exclusivas ao PÚBLICO, Patrick Drahi, líder e fundador da Altice, respondeu às críticas de António Costa e justificou os problemas de rede em Pedrógão Grande. 
"Em nenhum sítio do mundo uma torre consegue aguentar milhares de chamadas num só minuto". Leia o texto de Pedro Ferreira Esteves.

13:43
Ministro do Planeamento não comenta compra da TVI pela Altice

Na resposta do deputado comunista Bruno Dias, o ministro do Planeamento e das Infraestruturas, que está a ser ouvido na comissão de Economia, recusou-se a comentar o anúncio da compra da TVI pela Altice. 
"Há matérias que são da regulação do sector e a ela caberão. (...) 
Estou seguro que o regulador estará atento à situação."

Pedro Marques realçou que o Governo e o PCP "têm uma concepção diferente" sobre a forma de olhar para a Altice, lembrou que a empresa "opera em mercado, num sector regulado há vários anos" e que não cabe ao Executivo intrometer-se. M.L.

13:38
PCP alerta para concentração no negócio das redes de televisão

O deputado comunista Bruno Dias aproveitou a audição do ministro do Planeamento e das Infraestruturas na comissão parlamentar de Economia para se mostrar contra a compra da TVI pela Altice. 
"A empresa já controla a rede TDT e o maior operador de TV por cabo [meo] e está a preparar-se para uma operação de concentração e verticalização sem precedentes no sector."

"E vamos dizer que não se passa nada?", questionou o deputado, acrescentando que "isto não é um problema regulatório mas de acção e vontade política".

Bruno Dias defendeu a necessidade de o Estado voltar a assumir o controlo da empresa por se tratar de um sector estratégico para a "economia, soberania e segurança das pessoas". 
E insistiu na recusa de um cenário de "concentração entre comunicação social, telecomunicações e controlo do poder económico em sectores estratégicos." M.L.

13:34
Terminamos por aqui o acompanhamento ao minuto da conferência da Altice sobre a recente compra da Media Capital, anunciada esta sexta-feira. 
Continuaremos a mantê-lo informado no PÚBLICO. 
Obrigado por nos ter acompanhado.

Altice do outro lado do espelho


OPINIÃO
DIOGO QUEIROZ DE ANDRADE
14 de Julho de 2017, 6:20

Aparentemente — sublinhe-se o aparentemente — a Altice não conta com a simpatia deste poder. 
Será mais uma razão para evitar cruzar as linhas cinzentas onde esta multinacional com sede holandesa gosta de fazer os seus negócios.

Depois de dois anos de agitação nos grandes grupos de comunicação social, as casas começam a ser arrumadas. 
A Prisa, desesperada por liquidez, livra-se do negócio português que até dava lucro; e a Altice segue a sua tendência de aliar telecons a conteúdos, os dois braços do grupo detido por Patrick Drahi. 
A agitação não vai ficar por aqui, como os próximos meses certamente mostrarão.

A Altice quer da TVI aquilo que as telecons querem dos meios de comunicação: conteúdo exclusivo para diferenciar a sua oferta e um caminho para crescimento rápido. 
A sua actuação na Media Capital vai depender de qual será a expectativa mais forte: se optar por maximizar retorno, vai apostar em despedir em massa; se optar por promover o aumento da oferta digital, vai despedir menos mas enfrentar maiores problemas com os reguladores.

Este negócio não deverá levantar problemas de regulação. 
Mas o que aí vem, e a estratégia que a Altice pretenderá adoptar, já devem obrigar a maior atenção. 
Vai a Altice tentar fechar os seus conteúdos de cabo ao operador Meo? 
Vai a Altice comprar conteúdos, como fez em França com os direitos desportivos, para os fechar nas suas plataformas? 
O negócio dos conteúdos é cada vez mais competitivo, as margens são muito apertadas e o mercado está cada vez mais disperso. Só se vai lá com afinamento estratégico e agressividade comercial.

Por definição, tudo o que limite as escolhas do consumidor é mau em termos de mercado — independentemente de engordar accionistas. 
Tudo o que feche acessos a informação é mau em termos democráticos — independentemente do aumento da oferta. 
Será preciso ter um regulador activo e atento, que proteja o consumidor e não algum formalismo menos eficiente. 
Aparentemente — sublinhe-se o aparentemente — a Altice não conta com a simpatia deste poder. 
Será mais uma razão para evitar cruzar as linhas cinzentas onde esta multinacional com sede holandesa gosta de fazer os seus negócios.

Nota: 
É fácil reduzir Américo Amorim ao epíteto de detentor da maior fortuna portuguesa. 
É mais difícil explicar como conseguiu chegar onde chegou, como conseguiu manter a força do conglomerado e passar o testemunho conservando a coerência estratégica. Américo Amorim, tal como o grupo que fundou e tem o seu nome, foram e são muito úteis a Portugal e aos portugueses. 
Merece admiração e muito respeito.

Altice vai pagar 440 milhões pela Media Capital, dono da TVI

LILIANA BORGES
14 de Julho de 2017, 7:46 actualizada às 8:51
Patrick Drahi, líder da Altice 
O negócio acontece na mesma semana em que António Costa criticou a Altice durante o debate do estado da Nação.

A compra da TVI pela Altice irá custar mais de 440 milhões de euros. 
O montante consta na informação enviada à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) pela dona da PT, nesta sexta-feira. 
O negócio já havia sido confirmado na véspera pelo PÚBLICO. 
A Meo foi obrigada a lançar uma OPA (Oferta Pública de Aquisição) geral e obrigatória pelas acções da Media Capital, que controla a TVI e pertence ao grupo espanhol Prisa. 
A oferta representa 94,69% do capital social da empresa. 
Entre as promessas da nova dona da TVI estão: "aumentar a produção nacional", "desenvolver novos canais televisivos e formatos" e exportar conteúdos portugueses para França e EUA, segundo consta do documento entregue na CMVM.

"A Altice quer fornecer mais conteúdos a todos os consumidores portugueses num mundo digital e, como tal, disponibilizar mais oferta centrada em formatos e produção locais", lê-se no comunicado. 
No entanto, a par do investimento anunciado na área do digital, e com base na estratégia e actuação de outras empresas de telecomunicações como a francesa SFR, PT, ONI ou Cabovisão, antecipam-se cortes para redução de custos.

A OPA está agora dependente dos pareceres da Autoridade da Concorrência e da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). 

Acordo em semana crítica
O negócio acontece na mesma semana em que António Costa criticou a Altice durante o debate do estado da Nação, chegando a afirmar que não a queria como operadora.

Costa afirmou temer pelo “desmembramento” da PT e o futuro dos seus trabalhadores e acusando a empresa (que também é accionista do SIRESP) de ter pior serviço que as rivais Nos e Vodafone. 
No início desta semana soube-se que o Governo quer avaliar se é, ou não, possível responsabilizar os privados que gerem essa rede de comunicações de emergência SIRESP pelas eventuais falhas nos dias da tragédia de Pedrógão Grande, confirmou fonte oficial do Ministério da Administração Interna ao PÚBLICO.

“Espero que a entidade reguladora olhe com atenção o que aconteceu, só nestes incêndios de Pedrógão Grande, com as diferentes operadoras e para compreender bem como houve algumas que conseguiram manter sempre as comunicações e houve outra que esteve muito tempo sem conseguir manter comunicações nenhumas”, afirmou o líder do Governo.

O relatório do próprio SIRESP mostra que, no dia da tragégia, houve cinco torres avariadas, uma das quais na zona do centro de operações da Protecção Civil, mais uma torre saturada. Por essa razão, 22,3% das chamadas via SIRESP falharam, obrigando também a que muitas das comunicações de emergência ficassem limitadas a uma rede local.

As declarações do primeiro-ministro no Parlamento mereceram a crítica da oposição. 
Pedro Passos Coelho sem nomear a Altice, frisou não saber o que "leva o primeiro-ministro a atirar-se a uma empresa em particular". 
O líder do PSD considerou que Costa tinha feito uma “admoestação pública”.

BE acusa Altice de fraude
Do lado das criticas ao grupo liderado por Patrick Drahi está também o Bloco de Esquerda (BE), com Catarina Martins a acusar a Altice de fraude para contornar a lei e despedir três mil pessoas. 
"O Governo disse, e bem, que a empresa não podia despedir utilizando a figura do despedimento colectivo, mas a Altice quer despedir os mesmos trabalhadores utilizando os mais variados subterfúgios legais", afirmou Catarina Martins, esta quinta-feira.

"Como é que a Altice está a usar a figura de transmissão de estabelecimento, que acontece quando uma empresa está em dificuldades e é comprada por outra, e é a mesma que pediu uma licença bancária para operar como banco em Portugal", questiona, referindo-se à intenção da empresa em entrar na actividade financeira digital nos mercados europeus e lançar um banco em Portugal.

"A Altice não pode utilizar estratagemas legais para despedir ilegalmente. 
Se o Governo recusou o despedimento colectivo utilizando a forma legalmente prevista para esse efeito, tem agora também de usar todos os meios ao seu dispor para recusar que esse despedimento seja feito por meios legais que nem sequer podem ser utilizados."

liliana.borges@publico.pt

terça-feira, 13 de junho de 2017

Menos é melhor nas relações EUA-Rússia hoje

ANÁLISE
13-02-2017
Thomas Graham, diretor-gerente, Kissinger Associates e membro sênior do Instituto Jackson para Assuntos Globais, Universidade de Yale, foi diretor sênior para a Rússia na equipe do Conselho de Segurança Nacional durante a administração de George W. Bush. 
Especial para Repensar a Rússia.

Cuidado com a rápida melhoria das relações EUA-Rússia. Não pode ser sustentado, e sempre termina em tristeza por ambos os países. Isso, pelo menos, é a história das relações desde o fim da Guerra Fria, em que cada presidente americano - Bill Clinton, George W. Bush, e Barack Obama - podem atestar.

Isso não quer dizer que não exista uma necessidade urgente de melhorar as relações, ou pelo menos desarmar as tensões. Tensões sobre a Síria, Ucrânia e questões mais amplas de segurança europeia, em um período de retirada quase total, elevaram a níveis perigosos o risco de conflito inadvertido, o que poderia revelar-se catastrófico, dado que cada um dos lados têm grandes arsenais nucleares, forças convencionais avançadas, e florescentes capacidades cibernéticas. Há uma necessidade de normalizar as relações, restaurar a panóplia completa dos canais de comunicação, para evitar esse resultado. Além dessa etapa, no entanto, encontra-se um caminho longo, difícil de relações mais construtivas e mutuamente benéficas.

As razões para cautela são duas vertentes: a natureza das diferenças entre os dois países e a atmosfera atual em Washington.

Desde a extinção da União Soviética até a erupção da crise da Ucrânia, a presunção nos Estados Unidos era que a Rússia estava se integrando lentamente na Comunidade Euro-Atlântica de valores. É óbvio que isso não é verdade, mesmo que a Rússia permaneça, como tem sido nos últimos 300 anos ou mais, uma parte integrante da Europa e do seu sistema de segurança. Em vez de se iludir de possíveis fins compartilhados, precisamos primeiro reconhecer as diferenças profundas que nos dividem, se não nos princípios da ordem mundial per se, em sua interpretação. Compreendemos os direitos e obrigações da soberania de diferentes maneiras. Nós discordamos sobre as normas de integridade territorial e autodeterminação e sobre o uso legítimo da força. Nós divergimos com a legitimidade das esferas de influência. Essas diferenças estão no centro da crise da Ucrânia, como todos agora concordam, e do interesse americano pela crise. E os russos argumentariam que eram visíveis nas décadas de 1990 e 2000, enquanto ocidente tratava das crises dos Balcãs e ampliou a NATO e a União Europeia, quando a Rússia era fraca demais para defender seus interesses nacionais (ou suas interpretações dos princípios).

Precisamos discutir esses pontos de vista contrários francamente, e podemos, eventualmente, vir a concordar com um núcleo comum para cada um desses princípios fundamentais que são ao mesmo tempo preparado para honrar na prática. Mas os acordos não virão facilmente, tendo em conta as decepções do passado e as queixas do presente. A construção de uma nova ordem mundial, ou reinterpretando uma já existente, não é um passeio no parque.

A situação é similar quando se trata de rivalidades geopolíticas, sobretudo as duas principais crises - na Ucrânia e na Síria - que agora são muito importantes para a segurança europeia. Há certamente uma solução para a crise na Ucrânia, envolvendo uma combinação de neutralidade, os direitos das minorias, a integridade territorial, direitos de soberania e não-interferência. Mas alcançar isso exigirá compromissos de todos os lados, incluindo Washington e Moscovo. E cada uma dessas capitais vai ser obrigada a engolir algumas das inverdades que eles têm proclamado a respeito, por exemplo, o papel dos EUA no derrube da intervenção de Yanukovych e Rússia em apoio aos separatistas DONBAS. Que não será fácil, já que essas falsidades forneceram grande parte da justificação da política atual de cada lado.

A cooperação na Síria parece ser um empreendimento mais promissor porque os Estados Unidos e a Rússia afirmam ver derrotar o ISIS [1] como a principal prioridade de segurança nacional. Mas um olhar mais próximo descobre as armadilhas. Nos últimos anos, não conseguimos concordar sobre quem são os terroristas. Washington tentou, sem sucesso, separar os terroristas da oposição moderada, que insiste tem razões legítimas para tomar as armas contra o brutal regime de Assad. Moscovo identifica quase qualquer um desafiando Assad como um terrorista e vê o regime de Assad como o baluarte indispensável contra o terrorismo. Washington se opôs vigorosamente ao que vê como o flagrante desrespeito de Moscovo por vidas civis na condução de duras operações antiterroristas. Além disso, dada a multiplicidade de forças envolvidas no terreno na Síria e seus patronos externos, a campanha antiterrorista está intrinsecamente integrada na questão mais ampla do equilíbrio de poder no Médio Oriente, que agora está em grande fluxo. Isso acrescenta outra camada de complexidade à interação EUA-Rússia na crise da Síria.

A ordem mundial e os obstáculos geopolíticos, por si só, alertariam contra ilusões sobre uma melhoria radical a curto prazo nas relações americanas-russas, mesmo que Washington estivesse convencido da necessidade de melhorar as relações. Isso, no entanto, não é decididamente o caso. Com exceção da pequena comitiva do presidente Trump, Washington é profundamente cético em relação a Rússia e as suas ambições. O presidente Putin é visto como um determinado líder autoritário anti-americano com projetos imperialistas. A contínua indignação com a interferência russa na campanha presidencial norte-americana alimenta o animus anti-russo, e a prometida investigação da pirataria russa apenas manterá uma imagem malévola da Rússia nas manchetes. Qualquer esforço de Trump para chegar a Putin terá uma resistência formidável em seu próprio aparelho de segurança nacional, no Congresso dos republicanos e democratas e na mídia nacional.

Sob estas circunstâncias, um grande acordo é impossível. Mas a verdade seja dita, nem sequer é desejável que não seja sustentável, e seu colapso inevitável só afundaria as relações em profundidades cada vez maiores de animosidade e perigo. Em vez disso, o que é necessário agora é um compromisso de se envolver em uma ampla gama de questões críticas para a segurança e o bem-estar de ambos os países em busca de um equilíbrio estável de cooperação e competição que reduz o risco de conflito armado ao nível mais baixo possível Nas circunstâncias atuais. Ao longo do tempo, o equilíbrio pode mudar em favor da cooperação, pois cada país reavalia seus interesses e objetivos em um mundo em rápida mudança. Um dia, a Rússia e os Estados Unidos podem até se encontrar em uma parceria estratégica. Mas essa não é a tarefa para hoje.

[1] ISIS é um grupo terrorista proibido na Rússia.

domingo, 16 de abril de 2017

A China vai intervir na Coréia do Norte?

Opinião 
Coreia do Norte
Por Salvatore Babones

O líder norte-coreano Kim Jong-un acena de uma varanda durante um desfile para o festival "Dia do Sol" na Praça Kim Il-sung, em Pyongyang, em 15 de abril 
 Se a China intervir na Coréia do Norte, não seria para salvar Kim Jong-un.

Coreia do Norte está nas manchetes - novamente. Para um país pequeno e pobre de 25 milhões de pessoas, com certeza faz muitas notícias. Desta vez é a questão perene de testes nucleares. A Coreia do Norte testou cinco dispositivos nucleares desde 2006. Donald Trump não está de humor para permitir um sexto.

Poucos dias antes de sua cúpula da Flórida com o presidente chinês Xi Jinping, Trump jurou que "se a China não vai resolver a Coréia do Norte, nós vamos". Então, logo após a cúpula, ele recuou, sua promessa por ordenou um grupo de ataque porta-aviões para a região.

A maioria das pessoas concorda que a Coréia do Norte é um problema.
Além de seus testes nucleares, também é acusado de falsificação de moedas estrangeiras patrocinada pelo Estado, fabricação e venda de drogas ilícitas em escala industrial, e até de assassinar seus próprios cidadãos em países estrangeiros.

Mas porque é que o problema da Coreia do Norte China, em particular? A China é o único grande aliado diplomático da Coréia do Norte, mas o relacionamento está repleto de dificuldades. Como é que a China se ensaiou com um parceiro tão problemático? A história da relação é muito mais profunda do que a maioria das pessoas imagina.

A primeira Guerra da Coréia

China lutou na Guerra da Coréia de 1950-53. Em 1950, o novo regime comunista na China invadiu o país com quase três milhões de soldados, perdendo cerca de 180 mil soldados na guerra. Tudo isso aconteceu apenas um ano após o fim da própria guerra civil da China em 1949.

A China não participou na invasão inicial da Coreia do Norte do Sul. Ele interveio depois que as tropas das Nações Unidas de Douglas MacArthur derrotassem os norte-coreanos e lançassem uma contra-invasão do Norte. O exército da ONU estava praticamente na fronteira com a China antes que a China inesperadamente invadiu e empurrou para o sul até a linha que ainda divide as duas Coreias até hoje.
 
A última coisa que a China quer é uma Coreia unida sob a liderança sul-coreana. 
Mas a Guerra da Coréia de 1950-53 não foi a primeira intervenção chinesa na Coréia. Em um precursor distante para a década de 1950, um drama muito parecida aconteceu caminho de volta na década de 1590.

Em 1592, o Japão invadiu a Coréia em Busan e rapidamente subiu a península até a fronteira chinesa, provocando uma intervenção da China. O exército chinês empurrou os invasores para o sul, liberando Pyongyang, mas atingindo um impasse ao norte de Seul, onde a zona desmilitarizada se encontra hoje. O conflito terminou com uma retirada negociada das tropas japonesas em 1593.

O Japão passou a invadir a Coreia novamente em 1597, mas as forças coreanas repeliram o ataque com o apoio chinês. Durante os trezentos anos seguintes, a Coréia foi uma espécie de protectorado chinês, primeiro como estado tributário mais próximo da China e mais tarde como aliado na resistência contra o colonialismo ocidental e japonês.

 Em 1894, o Japão invadiu a Coréia novamente, desta vez como parte da maior Guerra Sino-Japonesa de 1894-95. E mais uma vez as tropas chinesas fizeram sua maior posição em Pyongyang. Mas desta vez perderam, e em 1910 a Coreia perdeu inteiramente a sua independência. Tornou-se uma colônia do Japão e sofreu uma ocupação militar de 25 anos que envenena as relações entre Japão e Coréia até hoje.

Voltar para Pyongyang

Tendo lutado para deter Pyongyang em 1593, 1894 e 1951, a ligação da China com a Coreia do Norte antecede os regimes comunistas atuais em ambos os países. Na verdade, é mais antigo do que o próprio comunismo. A Coréia do Norte não é exatamente um protetorado da China, mas sua história está tão estreitamente entrelaçada com a da China que sua independência de Pequim é quase impensável.

O regime norte-coreano de hoje se tornou uma responsabilidade para a China de que a China pode finalmente ter perdido sua paciência. No final de fevereiro, a China proibiu as importações de carvão da Coréia do Norte, um ato aplaudido pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Agora as coisas parecem estar ficando mais sério.
 


Há relatos não confirmados de que a China mudou para 150 mil soldados para sua fronteira com a Coréia do Norte, que Pequim chamou de "pura fabricação". Mas na sexta-feira, a China suspendeu repentinamente vôos entre Pequim e Pyongyang sem oferecer qualquer explicação.

Se a China está se preparando para intervir na Coréia mais uma vez, preparando-se para gerenciar as conseqüências de uma intervenção dos EUA na Coréia, ou apenas jogando em segurança, ninguém sabe.

O Nordeste da China já abriga milhares de refugiados norte-coreanos. Alguns estão fugindo do regime repressivo de Kim Jong-un, outros buscam trabalho e outros são mulheres forçadas a prostituir-se. Se houver outro conflito na Península Coreana, a China ficaria preocupada com o grande número de coreanos que fugiam da fronteira.
 

 A segunda a última coisa que a China quer é uma nova guerra da Coréia. Mas a última coisa que a China quer é uma Coreia unida sob a liderança sul-coreana. A liderança do Partido Comunista chinês aprendeu as lições de 1989-1991, quando a reunificação alemã finalmente empurrou as fronteiras da OTAN cerca de 1000 quilômetros para o leste eo comunismo soviético foi jogado no lixo da história.

Se a China intervir na Coréia do Norte, não será para derrubar o regime de Kim e promover a reunificação pacífica. Será para evitar um colapso do regime de Kim em face da má gestão interna e da pressão americana. Kim pode ir, mas a China vai se certificar de que o regime permanece. As conseqüências a longo prazo de qualquer intervenção desse tipo são a suposição de qualquer pessoa.

Salvatore Babones é sociólogo comparado na Universidade de Sydney. Ele é especialista em estrutura econômica global.

As opiniões expressas neste artigo são do autor e não refletem necessariamente a política editorial da Al Jazeera.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Um novo ano para o impasse da Rússia com o Ocidente

Análise
26 DE DEZEMBRO DE 2016 | 14:03 GMT
Previsão
  • A posição da Rússia na Eurásia melhorará no próximo ano, à medida que os Estados Unidos passem a uma nova administração e a União Européia enfrenta desafios institucionais crescentes.
  • Os países da antiga periferia soviética reavaliarão sua relação com Moscovo e com o Ocidente em conformidade.
  • Ainda assim, Moscovo não terá total liberdade na Eurásia, e seu impasse com o Ocidente vai persistir e evoluir em 2017.

Análise

Rússia pode ter algo para olhar para frente em 2017. 
Nos últimos três anos, o país tem sofrido inúmeros reveses estratégicos e enfrentou uma pressão significativa do Ocidente. 
A insurreição Euromaidan de 2014 em Kiev deu início a um período de maior cooperação entre a Ucrânia, a União Europeia e a NATO. 
Outros países estratégicos ao longo periferia da Rússia, como a Moldávia e a Geórgia, seguiram o exemplo quando as forças norte-americanas e da NATO expandiu sua presença e actividades ao longo das fronteiras da Polónia e dos países bálticos para a Roménia.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos e a União Europeia impuseram e continuamente prorrogaram sanções contra o país por suas ações na Criméia e no leste da Ucrânia. 
Isso aumentou a pressão sobre a economia russa, que entrou em recessão depois que os preços do petróleo caíram em meados de 2014. 
Para se sentar num assento na mesa de negociação com o Ocidente - e os Estados Unidos em particular - Rússia se envolveu no conflito na Síria. 
A estratégia até agora não conseguiu render o grande negócio que Moscovo estava esperando em questões controversas, como o conflito na Ucrânia. 
Mas 2017 poderia anunciar uma nova fase para o impasse da Rússia com o Ocidente.

Uma oportunidade para a mudança

Durante o ano passado, tensões crescentes expuseram as fissuras na frente ocidental unida contra a Rússia. 
A votação Brexit revelou fendas profundas na União Europeia, e a vitória de Donald Trump na eleição presidencial EUA pode prenunciar uma ruptura na política de Washington em relação a Moscovo. 
As eleições em toda a Europa em 2017 - em França, nos Países Baixos, na Alemanha e possivelmente na Itália - poderiam ampliar ainda mais as divisões no bloco Continental e desafiar o futuro da integração europeia.

Para a Rússia, lutas iminentes do Ocidente no ano que vem representam uma oportunidade. 
Moscovo tem trabalhado para explorar e, em alguns casos, influenciar a dinâmica na União Europeia e Estados Unidos para minar a unidade ocidental através de campanhas de propaganda, ataques cibernéticos e manobras políticas. 
A Rússia provavelmente intensificará esses esforços em 2017, aproveitando ao máximo a discórdia no Ocidente para alcançar seus objetivos, como um ajuste ou um fim aos regimes de sanções dos EUA e da UE. 
Os recentes avanços legalistas na Síria, por sua vez, poderia melhorar a posição do Kremlin para negociar com a administração Trump sobre uma série de questões.

A recuperar terreno

Mais perto de casa, essas mudanças permitirão à Rússia recuperar parte de sua influência na antiga periferia soviética. 
Dada a turbulência na União Europeia, o bloco vai hesitar em avançar com um processo de adesão de novos membros em 2017. 
À medida que suas perspectivas de integração com a tenda da União Europeia e da NATO e talvez desmoronar no próximo ano, países como a Ucrânia. 
A Moldávia e a Geórgia reavaliarão a sua relação com a Rússia. 
De facto, na sua recente votação presidencial, a Moldávia elegeu Igor Dodon, um candidato que prometeu aumentar os laços com Moscovo e rever os esforços de integração da UE no país. 
Embora a Ucrânia e a Geórgia dificilmente sigam o exemplo, eles podem muito bem adotar uma abordagem mais pragmática da Rússia, aumentando os laços comerciais com o país e comprometendo o status de seus territórios separatistas.

Moscovo provavelmente também ganhará influência em estados como o Azerbaijão e o Uzbequistão, que mantiveram sua neutralidade em relação à Rússia desde que a União Soviética entrou em colapso. 
Moscovo assinou recentemente acordos para expandir sua cooperação militar com cada país. 
Embora os negócios não significam um realinhamento estratégico para Baku ou Tashkent, eles, no entanto, aumentar a influência da Rússia nesses países. 
Moscovo também tentará assumir um papel mais ativo na garantia da segurança da Ásia Central no próximo ano, já que a região historicamente estável conta com uma variedade de desafios.

Mesmo os antigos países soviéticos já alinhados com Moscovo - incluindo a Bielorrússia, Armênia, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão - provavelmente redobrarão sua cooperação com a Rússia no próximo ano. 
Muitos destes países já assinaram acordos com Moscovo para aprofundar a integração na esfera da segurança. 
Além disso, os crescentes conflitos na União Europeia vão desencorajar países como a Bielorrússia e a Arménia de tentarem aumentar ainda mais as suas relações bilaterais com o bloco. 
Consequentemente, a União Económica da Eurásia e da Organização do Tratado Coletivo de Segurança - blocos principais da Rússia - poderia tornar-se mais ativo em 2017, depois definhando ao longo dos últimos dois anos.

Um ressurgimento limitado

Apesar da promessa de que o novo ano reserva para Moscovo, no entanto, retorno da Rússia está longe de garantido. 
Porque os Estados Unidos e a NATO não são susceptíveis de retirar-se das fronteiras europeias completamente, a Rússia não tem rédea solta sobre Eurasia. 
Além disso, várias partes dos Estados Unidos e da União Europeia vão contestar a remoção ou facilitação de sanções contra Moscovo. 
Enfrentando a perspectiva de apoio diminuído do Ocidente, Ucrânia e Geórgia podem olhar para construir seus próprios blocos com países vizinhos, como Polónia e Turquia para o reforço contra Moscovo. 
A Rússia, por sua vez, será cautelosa para não agir agressivamente nas suas terras fronteiriças, uma vez que contende com persistentes problemas económicos e políticos em casa.

Esses fatores impedirão que a Rússia aproveite plenamente a turbulência e a incerteza no Ocidente, à medida que seu impasse se estende para um novo ano. 
No entanto, o país poderia fazer progressos significativos nas suas negociações com o Ocidente e na sua antiga esfera de influência em 2017.

Analista principal: Eugene Chausovsky