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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

KPMG reuniu-se 40 vezes com o Banco de Portugal sobre o caso BES (mas terá o governador sabido?)

Sikander Sattar, fotografado pelo Expresso esta quarta-feira nos escritórios da KPMG em Lisboa
Sihander Sattar ao Expresso
Expresso Diário - 05/09/2014
Texto de PEDRO GUERREIRO

Presidente da KPMG fala pela primeira vez desde o colapso do BES e da ESFG. E sugere que os responsáveis pela supervisão do Banco de Portugal não informaram Carlos Costa de todas as reuniões.

Foi uma longa entrevista, que será publicada em grande parte na edição de amanhã do Semanário Expresso. Mas o Diário publica já uma parte, sobre as relações entre a KPMG, o Banco de Portugal e a CMVM. Sikander Sattar lidera a auditora histórica do BES e do ESFG, que colapsaram este verão.

O tema das reuniões é relevante por causa da prestação da informação ao país e ao mercado.
Carlos Costa, recorde-se, esteve no Parlamento por duas vezes, sendo que na primeira vez, a 18 de Julho, afirmou que o BES estava sólido e tinha almofadas de capital suficientes para acomodar problemas. Uma semana depois, a 25, foi a vez de Carlos Tavares, que foi mais cauteloso, remetendo para os resultados semetrais. Esses resultados - prejuízos de 3,6 mil milhões de euros - acabariam por ser publicados no dia 30, precipitando o ? "crash" das ações em bolsa no dia seguinte e, no fim de semana, a intervenção do Estado.

Têm sido noticiadas datas de várias comunicações entre a KPMG e os reguladores, no âmbito do processo BES GES. Há uma reunião, no entanto,  que ainda é desconhecida: o Expresso sabe que a KPMG se reunião no Banco de Portugal, a 16 de Julho. Confirma?
É verdade que no dia 16 há uma reunião no Banco de Portugal, onde esteve presente o Prof. Pedro Duarte Neves e o diretor de supervisão.

Mas Carlos Costa diz que só soube dadimensão dos prejuízos do BES no dia 25 de Julho.
Se o senhor governador do Banco de Portugal que só soube no dia 25 do valor da quantificação dos ajustamentos identificados pela KPMG, eu acredito. Eu não tive nenhuma reunião com o senhor governador. Se ele disse que só soube no dia 25, é porque só soube no dia 25. O que eu posso diser é que, como também vem hoje [quarta] num órgão de comunicação social dito por uma fonte oficial do BdP, o BdP recebeu um email no dia 22 da KPMG. A KPMG não envia emails que não tenha substância e impacto que seja materialmente relevante ou significativo.

O que diz esse email?
Leia. [mostra uma cópia do ermail]

O email é enviado a Luís Costa Ferreira, diretor de supervisão do BdP. Explica que foi detetado o esquema com as obrigações e que é possível que desta situação venham a ser identificados impacos significativos nas contas do BES, bem como a eventual existência de transações que não tenham sido efetuadas no melhor interesse no banco. Ou seja, a KPMG informou o Banco de Portugal que haveria impactos significativos nas contas do BES. Isto foi no dia 22. E no entanto o governador só soube no dia 25.
Como?
Não faço comentários porque não tenho conhecimentos da forma como a informação é comunicada dentro do Banco de Portugal.

Se a KPMG informou o diretor de supervisão no dia 22 e o governador só soube a 25, conclui que o diretor de supervisor não informou o governador deste email? É uma conclusão plausível?
[anuiu com a cabeça]
E a tal reunião de dia 16? Essa é anterior a o governador ter ido à Assembleia da Repúblicaafirmar que as almofadas de capital eram suficientes. O que se passou nessa reunião?
No dia 16 houve uma reunião, na sequência de contatos que tínhamos tido com a CMVM. Na reunião do dia 16 demos indicação ao BdP de que tínhamos identificado a situação da recompra das obrigações com perdas para o BES e que estávamos a investigar essa matéria, e que jogo que tissémos as conclusões iríamos reportar, como reportamos no dia 22.
Mas no dia 16 alertámos para a existência de um problema. [lê um documento interno]. A KPMG informou que havido tomado conhecimento da recompra das obrigações emitidas a partir de 11 de Julho com perdas significativas para o BES e que poderiam indiciar problemas. Mas há uma coisa mais importante do que isso. Nestes contatos que tivemos, a CMVM informou-nos de ao mesmo tempo que a KPMG estava a fazes essas investigações, a CMVM estava em contato com o Banco de Portugal sobre o mesmo tempo. Volto a repetir: o senhor governador diz que tomou conhecimento no dia 25 e eu só posso acreditar na sua palavra; a KPMG enviou o email no dia 22 como o próprio BdP confirma; há uma reunião de alerta no dia 16 da KPMG; e há contatos entre a CMVM e o BdP antes do dia 16 ... Mas tudo isso são datas, o que importa é termos descoberto o problema. Desde Novembro de 2013 até 31 de Julho de 2014, houve um trabalho de estreita colaboração entre a KPMG e as duas entidades reguladoras, o Banco de Portugal e a CMVM, Foi esse espírito de diálogo e contato permanente que deu estes resultados.

Como correu o trabalho com o Banco de Portugal?
Relativamente ao GES e à exposição do papel comercial do GES, o contato permanente da KPMG foi prativamente com o BdP, entre novembro e o momento do prospeto do aumento de capital. Só na altura que o prospeto foi para aprovação da CMVM é que o Banco de Portugal  solicitou à KPMG que fosse enviado uma cópia do relatório do ES Inaternational à CMVM. Só nessa altura é que a CMVM conheceu os detalhes dos ajustamentos que tinham sido propostos pela KPMG em relação à ESI e as consequência disso em relação ao Grupo Banco Espírito Santo e ao Grupo ESFG. Até aí, o contato tinha sido com quem tinha solicitado o trabalho, que era o Banco de Portugal. Nesses nove meses houve pelo menos 40 reuniões entre a KPMG e o Banco de Portugal, excluindo contactos telefónicos. Foi um grande espírito de colaboração. É importante salientar, e não tenho visto isso dito nem dito: o mais importante é descobrir o problema e ajustá-lo, como foi feito antes da apresentação das contas. Tem-se falado muito sobre as datas, mas na minha opinião não tem sido dado o relevo necessário ao facto de que, numa situação de operações complexas, que passaram por várias jurisdições - Luxemburgo, Portugal, Suiça, Panamá - mesmo assim foram as operações idententificadas e ajustadas. O faxto inequívoco e indiscutível é que tudo foi descoberto e foi ajustado. As contas apresentavam no dia 30 de Julho de uma forma apropriada e verdadeira a situação financeira do BES. E portanto nós estamos perplexos, porque se discutem muito as datas em que a situação foi descoberta e não o facto de essas contas apresentarem a realidade da situação financeira do banco naquele momento. O que é mais importante? 



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