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segunda-feira, 31 de julho de 2017

É um dos países mais isolados do mundo. Como é que a Coreia do Norte se tornou uma potência nuclear?

Ana França
22 Julho 2017
É um dos países mais herméticos do mundo, sem parcerias internacionais na área da Defesa nem acordos comerciais para a aquisição de material tão sensível. Mas a Coreia do Norte é um Estado nuclear.

Na Coreia do Norte estamos no ano 105, não em 2017. Razão: o calendário começa a contar desde 1912, ano que marca o nascimento de Kim Il-sung, primeiro líder do país depois da divisão entre o Norte e o Sul.

Na Coreia do Norte, se um homem for condenado a um período de prisão ou de trabalhos forçados num dos vários campos de concentração no país, a sua família também é obrigada a juntar-se-lhe. Para cada grupo de turistas há um monitor, que acompanha todas as visitas, todas as viagens de e para o único hotel onde é permitido ficar. Não existe Internet, os estudantes não fazem ideia de quem foi Nelson Mandela, por exemplo, e é proibido entrar no país com livros “subversivos”.

Votar é obrigatório e no boletim só vem uma opção. As eleições servem como uma espécie de Censos não-oficial, para manter o registo de desertores atualizado. Como é a família toda que sofre no caso de alguém cometer um crime, muitos norte-coreanos a trabalhar na China vão a casa votar e voltam, correndo um enorme perigo.

Uma das primeiras cenas de “Debaixo do Sol”, documentário de 2015 do veterano realizador russo Vitaly Mansky, mostra uma professora a ler uma história sobre os grandes feitos militares de Kim Il-sung, o fundador do regime, que lutou contra o domínio colonial japonês. Na sala estão à volta de 20 raparigas, longe ainda da adolescência, que gritam em uníssono frases de glorificação a Kim Il-sung enquanto a professora lhes ensina que é preciso nutrir o ódio pelos inimigos do Estado.

O filme de Mansk foi gravado com a conivência e o completo escrutínio das autoridades norte-coreanas, que souberam sempre que ele estava a gravar — mas não que ele estava sempre a gravar. As câmaras, que foram deixadas permanentemente em on, mostram membros do governo a dirigir as “personagens” do filme, ensinando-lhes, por exemplo, como expressar “mais felicidade”.


É neste país isolado que se está a formar mais uma potência nuclear. Como foi possível à Coreia do Norte ter acesso ao conhecimento tão especializado que permite criar uma bomba nuclear é uma dúvida que vários analistas têm tentado esclarecer. Mas há pontos em que todos concordam. O investimento no desenvolvimento nuclear com fins bélicos começou há várias décadas e, nos últimos anos, tem sido a prioridade número um do atual líder, Kim Jong-un. Como disse Scott Snyder, especialista na Coreia do Norte do Conselho de Relações Internacionais, ao The New York Times, “quando se persegue apenas uma linha estratégica, quando o foco de um governo é unicamente o desenvolvimento nuclear, serão criadas as condições para isso”.

Mas, visto de fora, a pergunta mantém-se: como é que é possível que um país isolado e na miséria possa conseguir isso?

Com uma pequena ajuda dos amigos

Tudo começou na Guerra Fria, quando o mundo foi divido em duas esferas de influência. Depois de divididas as “Coreias”, e apesar de a Coreia do Norte não ter sido propriamente um Estado integrado na URSS, os dois países mantinham relações próximas: ideológicas, comerciais e académicas. Era a primeira página da trama que haveria de vir a ter, a 4 de julho de 2017, um dos seus mais importantes momentos com o lançamento do primeiro míssil intercontinental norte-coreano. Naquela altura, a Coreia do Norte fazia parte de um grupo de países que conduzia, em conjunto, pesquisas com o intuito de desenvolver capacidade nuclear — o Instituto para a Pesquisa Nuclear. Durante anos, os seus cientistas foram livres para viver e aprender na Rússia tudo o que quisessem.
"Nos anos 80, a Europa era muito má em termos de restrições ou monitorização do que era vendido. Nem sequer havia necessidade de muito secretismo. Através das suas embaixadas, ou das poucas mas suficientes pessoas que tinham a trabalhar em alguns organismos europeus, conseguiam comprar material facilmente".
David Albright, fundador e presidente do Instituto para a Ciência e Segurança Internacional
“A Coreia tem reatores desde os anos 60. Simplesmente, demoraram muito mais tempo do que países com muitos recursos, técnicos e financeiros, a conseguir este estatuto. Mas chegaram, sem sombra de dúvida, ao mesmo porto”, diz ao Observador Mark Hibbs, investigador do Centro Carnegie para a Paz Internacional e um dos mais prolíficos jornalistas na área de energia.

A Coreia do Norte começou a construir os seus próprios mísseis a meio da década de 70, importando os chamados mísseis Scud do Egito, que tinham, por sua vez, sido comprados à Rússia. Os Scud são mísseis balísticos, com um alcance máximo de 300 quilómetros, que podem ser apetrechados, por exemplo, com ogivas nucleares ou armas biológicas. Através da reversão da engenharia utilizada para os construir, a Coreia do Norte conseguiu desenvolver os seus próprios mísseis, uma cópia exata dos Scuds, mas novos. Ao mesmo tempo que importava tecnologia de países aos quais a Rússia tinha vendido armamento, como o Irão, a Síria e o Egito, a Coreia do Norte também começou a pensar em formas de aliciar talento científico.

Um sul-coreano vê na televisão um ensaio do lançamento de uma bomba de hidrogénio na Coreia do Norte, em janeiro de 2016

Depois do colapso do bloco soviético, muitos cientistas russos acabaram por aceitar trabalho na Coreia do Norte, porque ou não tinham emprego, ou estavam a ser mal pagos no seu país.

O sucesso do fabrico de mísseis foi uma boa forma de criar relações com outros países que também estavam, na altura, a tentar robustecer a sua capacidade bélica. O Paquistão começou a comprar mísseis à Coreia do Norte e, em troca, a Coreia do Norte exigia tecnologia nuclear. Há ainda o caso de Adbul Qadeer Khan: além de ser o cientista à frente de toda a operação nuclear do Paquistão, também aceitou vender aos norte-coreanos segredos que colocaram o país mais próximo do enriquecimento de urânio, o mais importante passo para a produção de uma bomba nuclear.

Voltaremos a Khan, um dos atores principais nesta história, conhecido apenas como A.Q. Khan nos meios académicos, ou mesmo só por A.Q. — “o” A.Q.


O que é mesmo o enriquecimento de urânio e como é que se faz?

Em 1938, a física Lise Meitner e o seu sobrinho, Otto Frisch, sentaram-se numa montanha coberta de neve a tentar entender como é que o núcleo do urânio se dividia quando era “bombardeado” com neutrões. E descobriram que seria um processo mais ou menos semelhante ao de uma gota de água: primeiro tornava-se oval e depois começava a quebrar no meio, dividindo-se em dois. A este processo chamaram “fissão nuclear”, sendo que “fissão” é o nome dado à divisão de células em biologia.

Vários cientistas partiram desta descoberta e reconheceram que, se a fissão também emitisse vários neutrões secundários, a reação em cadeia que daí resultaria tinha o potencial de produzir quantidades enormes de energia.

Norte-coreanos fazem vénias em frente das estátuas de Kim Il Sung e Kim Jong Il (KIM WON-JIN/AFP/Getty Images)

Nos anos 80, a Coreia do Norte começou a acumular o que hoje em dia poderíamos chamar de “tecnologia sensível”. Numa visita a Viena, agentes norte-coreanos conseguiram contactar cientistas belgas que tinham acesso a um desenho para a construção de uma unidade de separação de urânio. O que quer isto dizer no dicionário do poderio nuclear? Que a Coreia do Norte tinha, pelo menos no papel, as instruções que poderiam levar a desenvolver armas nucleares com uma abrangência territorial e potencial de destruição preocupantes.

As armas nucleares são feitas com núcleos muito concentrados (>95%) de urânio ou plutónio. Portanto, grandes concentrações de plutónio são instáveis e proibidas. Supostamente, só há oito países — mais Israel, que não declara ter armas nucleares — com capacidade nuclear. Existem, contudo, centrais de produção de energia nuclear para fins civis em muitos países do mundo.

Há núcleos instáveis na natureza em baixas concentrações (plutónio ou urânio), mas nas minas as concentrações são sempre muito menores que 1%. É preciso ter acesso a grandes quantidades de “rocha” e retirar de lá só o urânio (ou plutónio). É a isto que se chama “enriquecer”: começando com uma quantidade gigante de matéria-prima, que tem por exemplo 0,5% de urânio, e acabando com uma pequena quantidade que tem 90% ou mais.

Mísseis Scud norte-coreanos em exposição na Coreia do Sul (CHUNG SUNG-JUN/Getty Images)

O método mais utilizado para este fim é a centrifugação: por o urânio ser um elemento muito pesado, separa-se dos outros mais leves. Inicialmente, o urânio é extraído de pedreiras ou de minas. O mineral bruto contém apenas 0,3% de urânio. Em seguida, o urânio é separado dos outros elementos minerais e o que sobra é o óxido de urânio, conhecido como “yellow cake” (“bolo amarelo”, em tradução literal). Depois, o óxido de urânio é convertido num composto gasoso, o hexafluorido de urânio.

Para ser enriquecido e transformado em combustível, o hexafluorido de urânio é processado em centrífugas nucleares. O gás é submetido a rotação em velocidades extremas. Os átomos de urânio mais pesados (U-238) ficam no alto da centrifugadora, e os mais leves (U-235) ficam no centro. O gás recuperado no centro é enviado para uma nova centrifugadora, que repete o processo sucessivamente, aumentando o grau de concentração de urânio.

Quem é A.Q. Khan?

A maior parte da estrutura do programa nuclear da Coreia do Norte foi consolidada nos anos 90, com uma substancial ajuda de Abdul Qareed Khan, o pioneiro do programa nuclear paquistanês. Depois do colapso soviético, firmaram-se dois acordos: um oficial e um secreto. Numa entrevista à BBC, um outro Khan, Feroz Khan, na altura oficial de alta patente do exército paquistanês com funções de vigilância no departamento de desenvolvimento nuclear, disse que o Estado paquistanês não só sabia como autorizou a troca de informação e equipamento entre os dois países. “Foi feito um acordo entre os dois países: a Coreia do Norte seria paga para transferir para o Paquistão o conhecimento que detinha sobre a construção de mísseis”, disse Khan.

Mas também o Paquistão abriu os seus canais de investigação à Coreia do Norte. “O Paquistão, ao admitir que o laboratório Khan tivesse contacto com Pyongyang, permitiu que a Coreia do Norte tivesse acesso à rede de conhecimento do laboratório”, disse ainda Feroz Khan. Assim, enquanto o acordo oficial servia para que cientistas norte-coreanos ensinassem aos paquistaneses como construir mísseis, o acordo secreto servia para que os paquistaneses ensinassem aos norte-coreanos como enriquecer urânio.


E os planos para transferência de material e conhecimento, por vezes, eram bastante criativos. Numa ocasião, a mulher de um dos cientistas norte-coreanos que na altura vivia em Islamabad, morreu e, junto com os seus bens, que foram enviados de volta à Coreia do Norte, viajaram também centrifugadoras antigas, escondidas no meio da mobília e dos electrodomésticos que a família tinha adquirido.


Os países aliados começaram, contudo, a fazer perguntas desconfortáveis ao Paquistão. “Foi muito estranho, ficámos numa posição muito constrangedora, porque havia toda esta preocupação de vários países, mas uma das principais funções do departamento que eu dirigia era verificar que se prestavam contas e que estava tudo controlado. Eu sabia que tínhamos que enviar de volta aqueles norte-coreanos o mais rápido possível porque a sua presença estava a tornar-se contraproducente”, disse Feroz Khan à BBC.
"O Paquistão, ao admitir que o laboratório Khan tivesse contacto com Pyongyang permitiu que a Coreia do Norte tivesse acesso à rede de conhecimento do laboratório".
Feroz Khan, ex-general paquistanês, que fazia segurança ao centro de investigação nuclear
Mas A.Q. Khan queria que o acordo continuasse. Sempre que Feroz Khan tentava dizer ao cientista que tinha de enviar os colegas norte-coreanos de volta porque a pressão diplomática estava a tornar-se incomportável, A.Q. dizia: “Preciso de mais uns meses”. Quando finalmente acedeu, era tarde de mais. A Coreia do Norte já tinha capacidade de enriquecer urânio e plutónio, os principais ingredientes de uma bomba nuclear. A.Q. Khan já pediu desculpa, já retirou as desculpas, e já foi perdoado.

A revista Time chamou-lhe “O Mercador da Ameaça” numa capa de 2005, já que os “seus” segredos também terão sido partilhados com o Irão e com a Líbia. A.Q. Khan, porém, considera-se um bode expiatório. Numa entrevista à revista alemã Der Spielgel, o cientista diz que assumiu a culpa por um exército que o “apunhalou pelas costas”, o mesmo exército que participou e lucrou com a venda de informação à Coreia do Norte. Pela mesma altura, Khan divulgou aquilo que alega ser uma carta de um oficial norte-coreano concordando com o pagamento de três milhões de euros ao chefe do exército paquistanês em troca de segredos nucleares.

Eram duas mil centrifugadoras, 25 bombas de água e 40 maçaricos para o paralelo 38, por favor

Quando A.Q. Khan começou o seu programa de enriquecimento de urânio nos anos 70, as trocas comerciais com vista à aquisição de material nuclear eram feitas com enorme informalidade. Khan ligava a conhecimentos pessoais que tinha na Holanda e na Alemanha, cientistas com os quais tinha trabalhado na Urenco, uma companhia de energia nuclear para fins civis, e pedia-lhes coisas específicas.

Aos poucos, os governos europeus e as várias administrações norte-americanas começaram a desconfiar e apertaram as regras de vigilância.

“Foi depois dos testes nucleares na Índia, em 1974, que os Estados interessados em adquirir material potencialmente sensível foram forçados a procurar outras vias. Os controlos de exportação foram fortemente robustecidos”, diz ao Observador David Albright, fundador e presidente do Instituto para a Ciência e Segurança Internacional, um organismo que advoga a não-proliferação nuclear.

Albright escreveu vários livros e relatórios para o governo norte-americano, ao longo dos anos, sobre a sombra ameaçadora da Coreia do Norte, que considera “mais consistente” do que alguns pensam. Especializou-se em tentar entender os canais e mecanismos que o “reino eremita” encontrou para aceder a material que lhe está vedado no mercado internacional. “O sucesso da Coreia do Norte depende dos seus esforços, largamente ilegais, em encontrar materiais para continuar a desenvolver o programa nuclear fora das suas fronteiras — e consegue isso das mais variadas formas. É tão fácil e tão barato comprar estas coisas: equipamento de medição, bombas de água, refrigeradores, ferramentas para soldar metal, lâmpadas”.
As perguntas vão-se empilhando. “Nos anos 80, a Europa era muito má em termos de restrições ou monitorização do que era vendido. Nem sequer havia necessidade de muito secretismo. Através das suas embaixadas, ou das poucas mas suficientes pessoas que tinham a trabalhar em alguns organismos europeus, conseguiam comprar material facilmente”, diz Albright. No início dos anos 2000, a “lista de compras” passou para a China. Num mundo sem atrasos, incompetência e corrupção até poderia funcionar, mas, depois de toda a papelada estar feita, os norte-coreanos "já inventaram uma nova empresa através dos seus aliados em vários países, que não querem saber a quem é que estão a abrir empresas", ou "já abriram um apartado numa qualquer ilha do mundo que ainda não foi identificado como um endereço suspeito e começa tudo outra vez".
Mark Hibbs, investigador Centro Carnegie para a Paz Internacional
“A Coreia do Norte envia agentes à China para criar empresas ou recrutá-las para que sirvam de testas-de-ferro junto de fábricas de todo o mundo que vendem produtos à China sem problema. Muitos destes produtos tanto podem ser utilizados para fazer bombas nucleares como bicicletas, passam pela porosa fronteira entre os dois países sem grande problema”, diz Albright. Os Estados Unidos sabem que estas coisas acontecem e é por isso que, recentemente, se começou a discutir em mais detalhe a possibilidade de impor sanções à China pela sua postura suave em relação à corrida belicista do seu pequeno país vizinho.

Num relatório recente enviado à Administração norte-americana, David Albright escreve que, “desde o início dos anos 2000, (…) a Coreia do Norte mudou a sua base de operações para a China, onde estão sediadas desde então. A partir da China, adquiriu um leque enorme de mercadoria através de empresas chinesas mas também através de intermediários que, por sua vez, adquirem materiais nos Estados Unidos, no Japão e na Europa, que pensam que estão a vender à China. E a China não tem feito um trabalho adequado no que toca ao reforço dos seus controlos alfandegários e das sanções a estas importações ilegais para a Coreia do Norte”.

“O meu trabalho de andar a tentar entender como é que eles conseguiram estas partes todas é deprimente. É um negócio muito perigoso o que está a acontecer e ninguém está a fazer nem um terço do que é preciso para parar isto”, diz ainda Albright.

Mas nem tudo vem da China — ou através de companhias “fantasma” que os norte-coreanos criam na China. Mark Hibbs, que foi durante décadas jornalista de investigação na área nuclear e ajudou e expor a rede de A.Q. Khan, acrescentou, numa conversa com o Observador, alguns apeadeiros à “Rota da Seda” versão nuclear.

Em 2003, Mark Hibbs passou os olhos por uma lista de países que as Nações Unidas — e as suas várias dependências que se ocupam do controlo da proliferação nuclear — tinham debaixo de olho como aliados incautos da Coreia do Norte. “Estavam lá países de onde os norte-coreanos estavam a tentar importar componentes. Havia portos nos Emirados Árabes, no Vietname, Singapura, Chipre, Grécia. Todo o mundo”, conta. As várias autoridades alfandegárias estão sempre a tentar manter uma lupa sobre estas transações mas o problema, explica Hibbs, é que tem de existir um acordo entre os vários países para impedirem a passagem de um item que já foi também impedido de prosseguir noutro.

“Ou seja, se o país X descobre que a Coreia do Norte está a tentar comprar equipamento no seu mercado, tem que dizer aos outros países que aquele produto está a ser procurado pela Coreia do Norte”, completa. Num mundo sem corrupção até poderia funcionar mas, depois de toda a papelada necessária, os norte-coreanos “já inventaram uma nova empresa através dos seus aliados em vários países, que não querem saber a quem é que estão a abrir empresas”, ou “já abriram um apartado numa qualquer ilha do mundo que ainda não foi identificado como um endereço suspeito e começa tudo outra vez”.

O método é este: se uma empresa, por exemplo chinesa, fizer uma encomenda gigante de aros de alumínio, cola, clips, e chapas, no meio desses 200 objetos, existirão com certeza alguns que poderão ser utilizados para a construção de uma bomba — mas como distingui-los?

O Dr. Siegfried Hecker, um americano convidado para “dentro do segredo”

“Dentro do Segredo” o título de um livro de José Luís Peixoto, escritor português que fez uma viagem à Coreia do Norte e de lá trouxe algumas histórias engraçadas como aquela em que conta que as compotas e as manteigas servidas ao pequeno-almoço estavam fora do prazo há alguns anos. Mas ainda há um segredo maior, ao qual os turistas não têm acesso: as centrais nucleares em pleno funcionamento.


Janeiro 2004. Yongbyon. É aqui que a Coreia do Norte extrai plutónio, e para isso precisam de reatores que são muito mais difíceis de esconder dos satélites do que as centrais de enriquecimento de urânio. O plutónio, material que a Coreia do Norte terá em menor quantidade do que de urânio, é extraído do combustível já gasto, o chamado spent fuel, e requer muito mais especialistas, várias infraestruturas para armazenar e “lidar” com o material radioativo, outras para o dissolver, outras para o separar. Siegfried Hecker, diretor do Centro para a Segurança e Cooperação Internacional (CISAC) na Universidade de Stanford, é um dos poucos ocidentais a ter sido convidado para conhecer as centrais nucleares da Coreia do Norte.


Num vídeo para as Google Tech Talks, Siegfried Hecker explica o que se passou. É arrepiante e fascinante ao mesmo tempo. “Vim embora de lá profundamente impressionado. As infraestruturas eram antiquadas, mas perfeitamente capazes de fazer o trabalho”. Hecker acha que os norte-coreanos queriam o respeito dos americanos e que foi por essa razão que o convidaram.

Dois anos mais tarde, em 2006, a Coreia do Norte conduziu o seu primeiro teste nuclear. A comunidade internacional sobressaltou-se, mas os cientistas norte-coreanos continuaram a trabalhar dia e noite. “A maior mudança foi em 2010. Em primeiro lugar, o edifício que eu conhecia estava completamente renovado. Depois fomos até ao segundo andar, olhamos através de uma janela de observação cá para baixo, para um grande hall, e lá estavam 2000 centrifugadoras, ligadas por tubos de último modelo. Fiquei chocado. Com a boca aberta”, disse o cientista à BBC sobre essa visita.
"Vim embora de lá profundamente impressionado. As infraestruturas eram antiquadas mas perfeitamente capazes de fazer o trabalho".
Siegfried Hecker, diretor do Centro para a Segurança e Cooperação Internacional (CISAC) na Universidade de Stanford
As suspeitas tinham-se tornado uma realidade perante os seus olhos. “Até então eles tinham capacidade de produzir talvez uma bomba por ano, através da extração de plutónio. Mas o enriquecimento de urânio é mais rápido. Todas as estimativas que temos são apenas parciais, mas temos que assumir que a Coreia do Norte tem material preparado para guarnecer pelo menos 20 bombas”, concluiu o cientista.

Através de termo-radares, satélites e uma análise da atividade sísmica no planeta, foi possível aos cientistas concluir que as duas últimas bombas que a Coreia do Norte testou “eram em tudo parecidas com aquelas que explodiram em Hiroshima e Nagazaki”, disse Siegfried Hecker ao podcast The InquiryThe Inquiry que a BBC dedicou ao tema. Demorou, mas chegaram lá.

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