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segunda-feira, 23 de julho de 2018

Os Capacetes Brancos da Síria e a guerra de propaganda

OPINIÃO
José Pedro Teixeira Fernandes
20 de Abril de 2018, 11:58
Os Capacetes Brancos têm uma acção meritória, e que merece respeito, no apoio humanitário a milhares de vítimas da guerra. 

Mas não podem ser vistos como uma criação da sociedade civil síria.

1. A organização não governamental (ONG) Defesa Civil da Síria, mais conhecida por Capacetes Brancos, tem tido um papel crucial na ajuda humanitária às vítimas da guerra da Síria. 
Em particular, desenvolve acções de apoio e tratamento médico às muitas vítimas do conflito, sobretudo nas zonas de guerra ocupadas pelos grupos rebeldes. 
Na página oficial da Internet pode ser vista a sua divisa humanitária sob o logótipo: “Actuamos neutralmente, imparcialmente e para todos os sírios”. 
Sobre a forma como operam no terreno é explicado tratar-se de acções baseadas num generoso voluntariado. 
“Num lugar onde os serviços públicos deixaram de funcionar e as bombas caem sobre os civis, nós, os Defensores Civis Sírios, agimos como voluntários desarmados e arriscamos nossas vidas para ajudar qualquer pessoa necessitada — independentemente da sua religião ou política.” 
O trabalho dos Capacetes Brancos é objecto de admiração e tem um elevado estatuto moral no Ocidente. 
Tiveram uma prestigiada nomeação para o prémio Nobel da paz em 2016. 
Um documentário sobre o trabalho humanitário desta ONG na Síria foi também premiado em 2017 com um óscar de Hollywood. 

2. Uma outra imagem dos Capacetes Brancos é apresentada pelos que apoiam o esforço de guerra de Bashar al-Assad na Síria. 
Nos canais de informação, provavelmente mais de propaganda, próximos do governo da Rússia — RT News e Sputnik —, os Capacetes Brancos são denunciados de forma cáustica pela sua parcialidade na guerra: “O grupo, que surgiu das equipas de resgate de ‘voluntários’ que operavam em áreas controladas por rebeldes em Alepo e no Idlib, em 2012”, tornou-se uma das “fontes de informação mais utilizadas nos materiais visuais na cobertura dos media ocidentais”. 
Mas “os auto-proclamados salvadores” trabalham em “estreita colaboração com os rebeldes e operam sob sua protecção.” 
É frequente encontrar tal descrição pejorativa noutros artigos e videos da RT News. 
Mas a denúncia mais bizarra está ligada ao ex-Pink Floyd Roger Waters. 
Num concerto, acusou a ONG de ser uma “falsa organização” que fornece propaganda para os “jihadistas e terroristas”. 
A RT News forneceu uma explicação para essa denúncia estridente: “O polémico grupo activista sírio, Capacetes Brancos, tentou influenciar o co-fundador dos Pink Floyd, Roger Waters, com dinheiro da Arábia Saudita.” 
Para além destes relatos e críticas corrosivas, um dos argumentos contra os Capacetes Brancos é o de estarem ao serviço dos interesses dos doadores: os governos ocidentais que pretendem derrubar Bashar al-Assad. 

3. Há uma guerra real em curso na Síria e uma guerra de propaganda em paralelo. 
A Rússia, com interesses óbvios no conflito, não é um Estado internacionalmente conhecido pela grande liberdade de imprensa e por uma sociedade civil forte. 
Pelo contrário, a propaganda, nas suas múltiplas formas, está aí bem enraizada desde “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, nos tempos do Czar Nicolau II, até à propaganda ideológica do socialismo-comunista da era soviética. 
Também o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, que passou pelo KGB soviético (os serviços secretos), não é estranho às técnicas de propaganda e de manipulação da informação. Sendo assim, devemos afastar totalmente a credibilidade dos relatos anti-Capacetes Brancos da Síria, como mera propaganda russa? 
Essa é uma conclusão tentadora, mas precipitada. 
O historial de propaganda da Rússia, só por si, não encerra a questão. 
Importa notar que é um facto confirmável que os Capacetes Brancos da Síria recebem apoios financeiros — através da Mayday Rescue e Chemonics —, dos governos do Reino Unido, Holanda, Dinamarca, Alemanha, Canadá, Nova Zelândia e EUA. 
A questão merece por isso ser analisada com mais detalhe nas suas diferentes implicações.

4. O governo britânico publicou informação concreta sobre a dimensão financeira do apoio aos Capacetes Brancos da Síria. 
Importa notar que não foi uma espontânea iniciativa governamental em prol da transparência, mas ocorreu na sequência de um pedido de divulgação dessa informação, feito ao abrigo da legislação interna do Reino Unido. 
Segundo a informação oficial publicada, o valor total dos fundos atribuídos aos Capacetes Brancos, entre 2013 e 2016, ascendeu a 19,7 milhões de libras. 
(Ver Governo do Reino Unido, 16/10/2017, “FOI release: how White Helmets spend funds”). Na mesma informação oficial britânica é ainda referido que “o apoio do Reino Unido à Defesa Civil da Síria (Capacetes Brancos) é fornecido através do nosso parceiro de implementação, a Mayday Rescue, que é uma fundação registada na Holanda.” 
A par da Chemonics, a Mayday Rescue suporta financeiramente os Capacetes Brancos da Síria. 
Olhemos agora para o perfil destas duas organizações que também apoiam, com treino para a missão humanitária no terreno, os Capacetes Brancos. 
Isso permitirá tentar perceber em que medida a neutralidade e imparcialidade na sua tarefa, de ajuda humanitária às populações civis na guerra da Síria, poderá estar em causa, como denunciam os seus críticos mais cáusticos e detractores.

5. A Chemonics é uma organização privada fundada em 1975 em Washington, que usualmente trabalha com o governo dos EUA, através da USAID, na ajuda ao desenvolvimento. 
Quanto à Mayday Rescue é uma fundação recente, com sede em Amesterdão, na Holanda, desconhecida da opinião pública internacional. 
Foi fundada em 2012, sendo dirigida por James Le Mesurier. 
O seu financiamento vem de governos europeus: o britânico, o holandês, o dinamarquês e o alemão. 
Na apresentação pessoal no Twitter de James Le Mesunier que a chefia, este afirma-se “orgulhoso de a ter erguido, treinar e sustentar.” 
Aparentemente, não existe informação oficial sobre o percurso anterior do seu fundador, nem na Mayday Rescue, nem nas páginas pessoais das redes sociais do seu fundador. 
No entanto, é possível ouvir uma (rara) entrevista que terá dado à BBC Radio 4. 
Curiosamente, não parece estar disponível no site oficial da BBC Radio 4. 

6. A fundação Mayday Rescue acaba, assim, por estar no centro das acusações que se projectam nos Capacetes Brancos, sejam elas provenientes da Rússia, do governo sírio, ou de outras origens. 
Para os seus detractores, James Le Mesurier não é um genuino activista e empreendedor humanitário que deva ser elogiado pelo seu trabalho de solidariedade humana em prol das muitas vítimas civis da guerra da Síria. 
É um ex-oficial do exército britânico ligado a empresas militares privadas. 
Paira sobre ele o “legado maligno das guerras sujas britânicas, travadas no Quénia, em Áden, na Irlanda, no Iraque, e na Líbia.” 
É acusado de ser um produto da “academia militar britânica Sandhurst” e de ter “servido em vários destacamentos militares do exército / NATO no Reino Unido nas últimas três décadas, especificamente na Bósnia, no Kosovo, no Iraque e no Líbano”. 
Na base dessa acusação está também Scott Rider, um norte-americano que esteve ligado às inspecções de armamento das Nações Unidas ao Iraque de Saddam Hussein nos anos 1990. 
Posteriormente, Scott Rider tornou-se um forte crítico da política externa dos EUA para o Médio Oriente. 
Que pensar de tudo isto?

7. Para responder a esta questão, é necessário efectuar aqui uma reflexão prévia sobre as ONGs. 
Em geral, estas têm uma conotação muito positiva no Ocidente e as suas informações e críticas são valorizadas pelos media. 
Essa imagem favorável e credibilidade resulta, em grande parte, de duas coisas: serem vistas como expressões genuínas da capacidade de organização e mobilização da sociedade civil; funcionarem como actores que promovem boas causas, em termos éticos e políticos. 
Assim, as ONGs tendem a ser vistas como um necessário contrapeso aos interesses e políticas dos Estados e/ou das grandes multinacionais. 
É isto que dá prestígio e respeitabilidade, por exemplo, ao Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) na ajuda humanitária (em situações de guerra); à Amnistia Internacional e à Human Rights Watch (nos Direitos Humanos); ou à Greenpeace (na ecologia e ambiente). Crucial, por isso, é manterem um elevado grau de independência na prossecução dos seus fins. 
Não é por acaso que a Amnistia Internacional não aceita doacções/financiamentos de Estados e partidos políticos. 
A mesma norma tem a Human Rights Watch, de não aceitar dinheiro com proveniência directa ou indirecta de governos, para manter autonomia de actuação. 
De forma similar, a Greenpeace rejeita qualquer financiamento de governos, partidos políticos ou empresas.

8. A forma de financiamento dos Capacetes Brancos da Síria não acompanha o esquema de autonomia usual nas ONGs. 
Como notado, estas certamente não teriam a credibilidade que usualmente têm se fossem financiadas por governos nacionais, de forma directa ou indirecta. 
Podemos imaginar o que seria a imagem e credibilidade da Amnistia Internacional se recebesse donativos do governo chinês, ou se a Greenpeace, fosse financiada, de alguma forma, pelo governo dos EUA. 
O facto de os Capacetes Brancos dependerem de dois doadores — a Chemonics, com uma conexão indirecta ao governo dos EUA pela via da USAID; e a Mayday Rescue, com uma conexão a diversos governos europeus, não é argumento, em si mesmo, para denegrir todo o trabalho da organização no terreno. 
Isso é injusto para muitos dos que, de forma altruísta e desinteressada, ajudam outros seres humanos no sofrimento da guerra. 
Mas, ao mesmo tempo, não se pode ignorar que esses donativos são um dado relevante politicamente. 
Não é crível que um governo nacional, por muito altruísta e humanitário que seja, apoie organizações da sociedade civil contra a sua visão e interesses de política internacional. Isso levanta uma questão crítica: pode, nessas circunstâncias, uma organização humanitária actuar sempre “neutralmente, imparcialmente e para todos os sírios” como diz a divisa dos Capacetes Brancos? 
E, sobretudo, pode ser considerada uma fonte de informação acima de qualquer suspeita de parcialidade, sobre o que se passa no terreno?

9. O problema adquire particular intensidade em situações como as que ocorreram em Douma, a 7 de Abril, com uso de armas químicas. 
Estas foram relatadas para o exterior por ONGs. 
Tais informações e relatos foram invocados pelos EUA, França e Reino Unido para responsabilizar o governo de Bashar al-Assad. 
Mas um caso anterior, com um vídeo que simulava um homem preso entre escombros e aparentemente congelado, onde participaram Capacetes Brancos, mostra um problema delicado. 
Como em todas as organizações humanas — e especialmente em situações críticas como a guerra —, nem sempre o comportamento dos trabalhadores humanitários é o mais apropriado. 
(Ver BBC, “White Helmets backlash after Mannequin Challenge video” 24/11/2016). 
Na justificação oficial era apenas um vídeo para sensibilizar a opinião pública para os horrores da guerra, posto a circular fora dos canais oficiais da ONG. 
Mas será que isso ficaria logo clarificado se não tivesse sido denunciada a encenação? 
Fica a resposta em aberto. 
Como já notado, os Capacetes Brancos têm uma acção meritória, e que merece respeito, no apoio humanitário a milhares de vítimas da guerra. 
Ao mesmo tempo, não podem ser vistos como uma criação da sociedade civil síria, similar à Amnistia Internacional ou à Greenpeace no Ocidente. 
Para terem esse estatuto, teriam de preencher os usuais critérios de independência face aos Estados, mas a dependência financeira dos Capacetes Brancos da Chemonics e da Mayday Rescue não o permite. 
Em que medida isso afectará a imparcialidade dos seus relatos sobre os horrores da guerra, e pode ser instrumentalizado para episódios como o uso de armas químicas em Douma, é uma questão à qual é impossível responder sem margem para dúvidas.

Investigador

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