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terça-feira, 29 de julho de 2014

O risco de uma crise bancária na China não é iminente

CHINA Riscos do crédito mal-parado no maior país do mundo país têm gerado algum alarme foto reuters
ENTREVISTA

A imprensa internacional fez eco de um risco elevado gerado pelo crédito mal parado na China. Para muitos analistas é uma enorme “bomba ao retardador” prestes a rebentar. Michael Pettis, professor de Finanças na Universidade de Pequim, e um dos bloguistas mais influentes sobre a situação na China, desdramatiza em entrevista exclusiva ao Expresso

TEXTO JORGE NASCIMENTO RODRIGUES

O principal problema da China não é o sector bancário ‘sombra’” e o risco de uma crise bancária na segunda maior economia do mundo “não é iminente”, diz Michael Pettis, professor norte-americano na Universidade de Pequim e autor do blogue de referência “China Financial Markets”.
 Pettis, em entrevista exclusiva ao Expresso, responde aos temores ultimamente difundidos sobre o alto risco do crédito mal parado na China e do sistema bancário ‘sombra’ que tem servido para “contornar” as regras no sistema bancário formal. O professor de Finanças da Escola de Gestão Guanghua acha que o governo de Pequim ainda dispõe de mais “dois a três anos” para controlar o problema do crédito mal parado e do nível elevado do crédito.

Os temores foram ampliados com a publicação, ontem, no jornal “Financial Times” (FT), de declarações do responsável da Fidelity em Hong Kong para o fundo de investimento China Spécial Situations alertando que o nível de crédito mal parado é muito superior ao referido pelas fontes oficiais, que apontam para 1% dos ativos na maioria dos bancos chineses. Os próximos 12 meses “serão muito interessantes” para acompanhar 0 assunto, disse Dale Nicholls ao FT, repetindo o que muitos gestores de fundos têm avisado.

Por outro lado, a revista “Euromoney” referia este mês que os riscos de crise bancária na China triplicaram em pouco mais de um ano, devido a uma descida na capitalização do sector em bolsa e ao disparo da dívida, assinalando, também, o risco sistémico colocado pelo sector “sombra”. O nível de risco subiu de 153 mil milhões de euros em fevereiro de 2013 para 459,9 mil milhões em maio, segundo o índice de risco sistémico do Volatility Institute da Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque e do Center for Risk Management, de Lausana, na Suíça. Esse nível mede o montante da injeção que o governo chinês terá de realizar no caso de crise financeiro do sector; em Maio equivalia a 7,8% do PIB. É o mais elevado do mundo em termos absolutos (na injeção em euros), estando à frente do Japão e dos Estados Unidos, ainda que, em termos relativos (rácio face ao PIB), esteja muito abaixo do requerido para a Suíça, França, Reino Unido e Japão.
  
O risco de crise bancária na China é iminente?
Depende do que se entende por “risco”. É verdade que o crédito mal parado continua a acumular-se no sistema bancário, pois o crédito bancário continua a subir muito rapidamente. Mas a probabilidade de se desencadear uma crise financeira é baixa.

É baixa?
A maioria dos chineses acredita que os depósitos bancários - e mesmo o dinheiro investido nos “produtos de gestão de fortunas” - estão garantidos pelo governo e que essa garantia é credível.

O alarme difundido nos media internacionais é excessivo?
Não penso que o risco seja iminente. Pequim tem mais três ou quatro anos para controlar o problema.

O problema é o tão falado sistema bancário “sombra” que tem servido como intermediário para a economia real e para muitas operações financeiras realizadas contornando as regras do sistema bancário formal?
Não acho que seja o problema principal.

Porquê?
Apesar de haver fraude e esquemas Ponzi campeando no sistema “sombra”, no conjunto, numa avaliação global, eu diria que, provavelmente, o sistema “sombra” não faz pior, e que até pode estar a fazer melhor à economia, canalizando dinheiro para empresas e negócios na China mais eficientes e com menos desperdício - nomeadamente para as pequenas e médias empresas, que, no seu conjunto, economicamente, são mais eficientes e produtivas.

Onde está, então, o problema?
Está no modelo de crescimento económico da China que está excessivamente dependente de um crescimento da dívida ainda mais rápido, seja operado pelo sistema bancário formal, seja pelo sistema “sombra”. Este modelo é claramente insustentável.

Por que razão surge, então, toda esta atenção dada ao sistema “sombra”?
O sistema “sombra” cresceu rapidamente devido às regulamentações que limitam o crescimento do crédito normal através do sistema bancário formal, em virtude da obrigação de determinados rácios dos empréstimos face aos depósitos. Por isso, muita da expansão do crédito ocorre fora do sistema formal, ainda que a generalidade das pessoas acredite que os bancos formais têm efetivamente garantidas as potenciais perdas no sistema “sombra”.

Que deveria fazer o governo chinês?

Em vez de tentar resolver o problema dos bancos “sombra”, eu acho que Pequim tem de alterar a dependência da China em cada vez maiores pilhas de dívida que está a gerar inclusive um declínio num crescimento não saudável.

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